As algas marinhas raramente recebem elogios quando se acumulam nas praias. Nas Caraíbas, o sargassum passou mesmo a representar um motivo de irritação.
Ao longo das linhas costeiras, formam-se tapetes espessos de sargassum castanho que apodrecem, libertam um cheiro nauseabundo, prejudicam a vida marinha e afastam turistas. As autoridades locais gastam somas elevadas na remoção, apenas para ver novas vagas a darem à costa.
Ainda assim, a ciência começa a olhar para o problema de outra forma. Em vez de encarar o sargassum como lixo, investigadores colocam uma questão simples: será possível transformar este incómodo num recurso?
Um estudo recente indica que sim - e as consequências podem ir muito além da faixa costeira.
Um problema oceânico em crescimento
Desde 2011, o sargassum pelágico espalhou-se pelo Atlântico em quantidades gigantescas, formando aquilo a que os cientistas chamam o Grande Cinturão Atlântico de Sargassum.
Esta faixa estende-se pelas Caraíbas, pelo Golfo do México e por partes da África Ocidental.
Os efeitos são vastos: os recifes de coral ressentem-se; as tartarugas marinhas têm dificuldade em deslocar-se através das massas densas; rotas de pesca ficam obstruídas; e as praias tornam-se impraticáveis. A escala é tal que os satélites monitorizam estas proliferações a partir do espaço.
Apesar dos danos, esta biomassa flutuante contém algo de valor. Até um quinto do seu peso seco é composto por alginato, um composto muito utilizado na indústria alimentar.
Um ingrediente alimentar discreto
A maioria das pessoas consome alginato sem se aperceber. As empresas alimentares recorrem a este ingrediente para dar textura e estabilidade.
Ele engrossa molhos, aumenta a cremosidade de gelados e ajuda a formar geles em sobremesas. É também responsável pela explosão característica das pérolas de bubble tea.
O alginato funciona graças à sua estrutura. É constituído por dois blocos - ácido gulurónico e ácido manurónico - e a forma como estes se organizam determina o comportamento da molécula.
Quando o equilíbrio é adequado, o alginato cria geles resistentes ou emulsões estáveis. Se essa proporção se desvia, essas propriedades enfraquecem.
Por isso, o alginato é simultaneamente valioso e sensível: o seu desempenho depende do modo como é processado.
As preocupações de segurança mantêm-se
Utilizar sargassum directamente em alimentos não é simples. Estas algas absorvem metais pesados da água do mar, incluindo arsénio, cádmio e chumbo, o que torna inseguro o consumo em estado bruto.
“Em geral, é tratado como resíduo porque cheira mal, afecta o turismo e pode transportar contaminantes ou bactérias”, afirmou Imran Ahmad, da Florida International University (FIU).
Para lidar com este obstáculo, os investigadores aperfeiçoaram os métodos de extracção. O processo inclui lavagem ácida, separação com base em álcool e etapas com pH controlado.
Em conjunto, estas fases removem muitos contaminantes e resultam num alginato mais limpo.
Os resultados são encorajadores: o produto final apresenta muito menos impurezas do que a alga em bruto.
Repensar os métodos de extracção
A extracção tradicional de alginato já está estabelecida. O método recorre a um tratamento ácido, seguido de processamento alcalino, para isolar o composto. No entanto, a equipa de investigação quis ir mais longe.
A questão era perceber se tratamentos físicos aplicados antes da extracção poderiam alterar as propriedades finais do alginato.
O objectivo não era apenas obter alginato, mas ajustá-lo para aplicações alimentares específicas.
Foram avaliadas três abordagens: uma com calor e pressão através de autoclavagem; outra com alta pressão sem calor; e uma terceira que utilizou ondas sonoras por sonicação.
Encontrar as melhores condições
Antes de comparar os tratamentos, a equipa optimizou o processo base de extracção, testando diferentes temperaturas, tempos e concentrações químicas.
Os melhores resultados surgiram com temperatura elevada e maior duração. A 80 °C durante cinco horas, as algas libertaram mais alginato, com rendimentos a atingirem cerca de 44%.
Este passo permitiu que as comparações seguintes se focassem na qualidade - e não na quantidade.
O calor danifica a estrutura
A autoclavagem foi a opção com pior desempenho. O calor e a pressão elevados degradaram as cadeias de alginato.
O peso molecular caiu de forma acentuada. A viscosidade diminuiu e a força do gel baixou em mais de metade. Estas alterações reduzem a utilidade do material em aplicações alimentares.
De forma simples, o calor comprometeu a estrutura que dá valor ao alginato. Para produtos que exigem geles fortes, esta via não é particularmente eficaz.
As ondas sonoras mostram potencial
A sonicação apresentou um resultado mais favorável. Este método usa ondas sonoras para criar microbolhas que colapsam e fragmentam materiais.
O tratamento preservou grande parte da estrutura do alginato. A força do gel manteve-se elevada e o tamanho molecular permaneceu dentro de um intervalo útil.
Isto torna o alginato obtido por sonicação adequado para alimentos que precisam de firmeza e estabilidade, como sobremesas, geles estruturados e nutrientes encapsulados.
A pressão melhora as emulsões
O processamento a alta pressão trouxe uma vantagem diferente. Originou cadeias de alginato mais curtas, que se movimentam com maior facilidade em líquidos.
Estas cadeias comportaram-se bem em emulsões, ajudando a misturar óleo e água de forma mais eficaz. Entre todas as amostras, o alginato tratado por pressão apresentou o melhor desempenho de emulsificação.
“Em vez de usar calor, que pode danificar nutrientes e a estrutura, aplicamos uma pressão extremamente elevada”, disse Ahmad.
“Essa alta pressão elimina microrganismos nocivos, mas preserva os compostos úteis que queremos extrair.”
Desta forma, o alginato tratado por pressão pode ser útil em produtos como molhos, bebidas e alternativas aos lacticínios.
A química mantém-se estável
Uma conclusão destaca-se: apesar das mudanças físicas, a estrutura química do alginato manteve-se estável entre os diferentes tratamentos.
A proporção dos seus blocos constituintes não se alterou de forma significativa. Ou seja, os tratamentos ajustam o comportamento físico sem modificar a química de base.
Para a produção alimentar, isto é relevante, porque apoia objectivos de “rótulo limpo” e evita modificações químicas complexas.
Um conjunto de ferramentas flexível
O estudo mostra que não existe um único método superior em todos os cenários. Cada tratamento traz benefícios distintos.
A sonicação favorece geles mais resistentes. A alta pressão favorece emulsões. O calor, embora menos útil neste caso, continua a ter aplicações conhecidas noutros processos.
Assim, os cientistas de alimentos podem escolher o método em função do produto final. Essa flexibilidade transforma o Sargassum numa fonte de ingredientes ajustáveis.
Rumo à aplicação no mundo real
A investigação abre caminho para o aproveitamento do sargassum em grande escala, demonstrando que ingredientes valiosos podem surgir de um desafio ambiental.
Mesmo assim, ainda há trabalho pela frente. É necessário confirmar a segurança em diferentes locais e épocas do ano, e testar o desempenho em sistemas alimentares reais - não apenas em condições de laboratório.
“Os nossos investigadores na Chaplin School procuram sempre formas de resolver problemas que afectam e podem ajudar a melhorar a indústria da hospitalidade e do turismo”, disse Michael Cheng, director e professor, FIU Chaplin School of Hospitality & Tourism Management.
“Estamos orgulhosos da investigação inovadora do Dr. Ahmad e esperamos ver como o seu trabalho pode ajudar a resolver não apenas um problema da Florida, mas uma questão global muito maior.”
De resíduo a oportunidade
É provável que o sargassum continue a fazer parte dos ecossistemas oceânicos durante anos. As alterações climáticas e o escoamento de nutrientes continuam a favorecer o seu crescimento.
A questão, agora, é como responder. Removê-lo e descartá-lo custa dinheiro e resolve pouco. Aproveitá-lo cria valor e reduz desperdício.
“Se conseguirmos transformá-lo em algo útil, mudamos a conversa de eliminação para oportunidade”, afirmou Ahmad.
Essa mudança pode alterar economias costeiras e cadeias de abastecimento. O que antes estragava praias poderá em breve melhorar a textura de alimentos do dia-a-dia.
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