Os suplementos de colagénio tornaram-se um dos campeões de vendas no sector do bem‑estar, com promessas que vão desde uma pele mais lisa até articulações mais resistentes. A questão é simples: cumprem mesmo o que anunciam?
Uma nova revisão de grande dimensão da evidência - que reuniu dados de 113 ensaios clínicos - indica que, para alguns desfechos de saúde, a resposta é provavelmente afirmativa.
Ainda assim, como quase sempre acontece na ciência da nutrição, a história completa tem mais nuances.
O que é o colagénio e porque se recorre a suplementos
O colagénio é uma proteína produzida naturalmente pelo organismo. Contribui para a estrutura e a elasticidade da pele, dá suporte a ossos e músculos, participa na cicatrização e ajuda a proteger órgãos. O problema é que, com o passar dos anos, a sua produção abranda - e é por isso que tantas pessoas procuram suplementos para “reforçar” os níveis.
No entanto, nem todo o colagénio é igual. O colagénio que existe naturalmente nos alimentos pode ser menos bem absorvido do que as formas mais pequenas presentes na maioria dos suplementos.
Estas versões hidrolisadas - em que a proteína é “partida” em cadeias mais curtas, chamadas péptidos - são consideradas mais aptas a passar para a corrente sanguínea. Isso pode facilitar o transporte destes fragmentos para tecidos onde poderão exercer efeitos biológicos, com potencial impacto na saúde da pele, das articulações e dos músculos.
O que a nova revisão encontrou sobre suplementos de colagénio
A revisão agora publicada analisou investigação disponível até março de 2025 e baseou-se em 16 revisões sistemáticas que, em conjunto, envolveram quase 8,000 participantes. O balanço geral foi prudente, mas tendencialmente favorável.
A suplementação com colagénio foi associada a melhorias moderadas na saúde muscular e a menos dor em pessoas com osteoartrite.
Também foram observados ganhos na elasticidade e na hidratação da pele - embora estes efeitos tenham surgido de forma gradual, o que sugere que a consistência ao longo do tempo é mais relevante do que uma toma intensa durante um curto período.
Limitações da evidência e qualidade dos estudos
Alguns resultados foram menos lineares. Os efeitos na elasticidade e na hidratação da pele variaram conforme o momento em que os estudos foram realizados: a investigação mais recente apontou para melhorias menores na elasticidade, mas maiores na hidratação.
Esta falta de consistência merece atenção - é um sinal de que a evidência ainda está a estabilizar.
Também é importante avaliar criticamente a qualidade do próprio corpo de investigação. Os estudos recorreram a métodos muito diversos, a doses diferentes e a formas distintas de medir resultados, o que torna difícil comparar directamente as conclusões.
Quinze das 16 revisões incluídas foram classificadas como de qualidade baixa ou criticamente baixa - não necessariamente porque os suplementos não funcionem, mas devido a fragilidades metodológicas, como a ausência de registo prévio dos estudos e a fraca descrição de potenciais enviesamentos.
Além disso, muitos ensaios foram curtos e com poucos participantes, o que limita a fiabilidade das conclusões sobre efeitos a longo prazo.
Nem todos os tipos de colagénio são iguais
Parte da dificuldade está na enorme variabilidade entre suplementos de colagénio. Alguns são de origem animal, como bovinos, suínos e galinhas; outros vêm de fontes marinhas, incluindo peixe, águas-vivas e marisco.
Existem ainda as chamadas alternativas de colagénio “vegan”. Em alguns estudos testaram-se suplementos orais, enquanto noutros se avaliaram pensos de colagénio aplicados na pele.
A forma como o colagénio é processado também altera o tamanho e a composição dos péptidos no produto final, o que, por sua vez, influencia o seu comportamento e a absorção no organismo. Agrupar produtos tão diferentes numa única análise pode esconder tanto quanto aquilo que esclarece.
As diferenças entre pessoas também contam. Exposição solar, tabagismo, qualidade do sono, ambiente e níveis hormonais influenciam o envelhecimento da pele e podem condicionar a resposta à suplementação.
Quando os estudos não controlam estas variáveis, torna-se muito difícil perceber se as alterações observadas são realmente atribuíveis ao colagénio ou se reflectem apenas diferenças nos estilos de vida dos participantes.
Esta revisão junta-se a um conjunto crescente de dados que sugere que os suplementos de colagénio não são apenas placebos caros. Parece haver benefícios reais, ainda que modestos - sobretudo na hidratação da pele, na dor articular e na saúde muscular.
Apesar disso, a base científica mantém lacunas importantes. Sem estudos mais rigorosos e mais padronizados, continua a ser genuinamente difícil identificar o que está por detrás destes benefícios, ou quem tem maior probabilidade de os sentir.
Os estudos precisam de indicar de forma clara o tipo de colagénio utilizado, a dose, o modo de administração e as características das pessoas que o tomam.
Heba Ghazal, Professora Sénior, Farmácia, Universidade de Kingston
Este artigo é republicado de A Conversa ao abrigo de uma licença Comuns Criativos. Leia o artigo original.
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