A expressão "AVC ocular" tem surgido recentemente em notícias sobre um efeito secundário muito raro associado a injecções para perda de peso. Não se trata de um diagnóstico médico formal, mas de uma forma abreviada de descrever uma situação em que a diminuição do fluxo sanguíneo lesa o nervo óptico e provoca perda súbita de visão.
Apesar de útil como atalho, o termo pode induzir em erro. Ao contrário de um AVC convencional - que pode levar à perda de força nos membros ou a dificuldades na fala - um "AVC" no olho pode passar despercebido no início. A visão pode desaparecer por completo ou ficar apenas parcialmente afectada, num só olho ou em ambos, sem dormência nem paralisia.
A palavra "AVC" é usada porque, tal como na condição mais conhecida, a causa de base é a interrupção do aporte de sangue, que acaba por levar à morte celular e a dano dos tecidos. O nome clínico correcto para o chamado "AVC ocular" é NAION, sigla de neuropatia óptica isquémica anterior não arterítica.
O que mostrou o estudo sobre semaglutida, Wegovy e NAION
A ligação recente entre a NAION e tratamentos para perda de peso tornou-se notícia na sequência de um grande estudo focado na semaglutida, o ingrediente activo de vários medicamentos populares para emagrecer.
Os investigadores analisaram mais de 30 milhões de efeitos secundários comunicados à Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) e verificaram que 31.774 estavam associados à semaglutida. Um medicamento, em particular, destacou-se: concluiu-se que o Wegovy apresentava uma associação muito mais forte com NAION do que outros tratamentos à base de semaglutida.
De acordo com o estudo, o risco de "AVC ocular" com Wegovy foi quase cinco vezes superior ao observado com Ozempic, apesar de o Wegovy estar ligado a um número total mais baixo de efeitos secundários reportados.
Como a semaglutida pode interferir com o fluxo sanguíneo no olho
Para perceber por que motivo a semaglutida pode reduzir o fluxo sanguíneo no olho, é preciso algum contexto. A semaglutida é uma versão sintética de uma hormona naturalmente presente no organismo, a GLP-1, que ajuda a regular a glicemia. Fá-lo ao estimular a produção de insulina, ao diminuir a libertação de uma hormona que eleva o açúcar no sangue chamada glucagom, e ao abrandar a digestão.
A semaglutida tem sido utilizada no tratamento da diabetes tipo 2, de doença cardíaca e da obesidade. O Wegovy é administrado por injecção com uma dose máxima mais elevada do que a do Ozempic, outro medicamento injectável. Os fármacos injectados entram na corrente sanguínea mais depressa e em concentrações mais elevadas do que os comprimidos - e, de forma relevante, não foi encontrada qualquer ligação entre NAION e o Rybelsus, a forma em comprimidos da semaglutida.
A rapidez com que o Wegovy promove a perda de peso - mais rápida do que a de outras terapêuticas - poderá, por si só, fazer parte da explicação. O corpo humano é um sistema finamente equilibrado, no qual nenhum órgão ou processo funciona de forma isolada.
O sistema nervoso autónomo, responsável por funções involuntárias como a frequência cardíaca e a digestão, depende de um equilíbrio cuidadoso de hormonas para manter o organismo estável. Quando um medicamento externo altera de forma marcada o comportamento dessas hormonas, o resto do corpo pode ser afectado de modos inesperados.
As doses relativamente elevadas usadas com o Wegovy podem levar a oscilações da tensão arterial para lá do habitual. Uma descida acentuada da tensão arterial reduz a velocidade com que o sangue circula no organismo, e o olho é especialmente vulnerável a este fenómeno.
A retina é irrigada por alguns dos vasos sanguíneos mais pequenos do corpo e depende desses vasos para receber oxigénio. Qualquer alteração importante da tensão arterial pode perturbar seriamente esta circulação delicada.
Os homens enfrentam um risco muito mais elevado do que as mulheres
Ainda assim, isto não explica por completo por que motivo um medicamento globalmente benéfico para a saúde cardiovascular e para o controlo da glicemia poderia ter um efeito nocivo tão específico na visão. Também não esclarece outro resultado inesperado do estudo: os homens que tomavam estes tratamentos para emagrecer aparentavam ter três vezes mais risco de perda de visão do que as mulheres.
O estudo não apresentou detalhe suficiente sobre as diferenças entre participantes do sexo masculino e feminino. Por exemplo, não se sabe se foram incluídos mais homens do que mulheres com obesidade mais grave. Além disso, dados de grande escala deste tipo nem sempre captam as nuances necessárias para compreender plenamente a relação entre causa e efeito.
É importante manter estes resultados em perspectiva: embora tenha sido identificada uma associação entre semaglutida e perda de visão, este efeito secundário continua a ser raro.
São necessários mais estudos para definir níveis de dosagem seguros e para perceber se determinados factores - como sexo, idade, peso ou problemas de saúde já existentes - tornam algumas pessoas mais vulneráveis do que outras.
A semaglutida está a ser prescrita para um número crescente de condições e, cada vez mais, a doentes mais jovens. Para garantir que estes tratamentos não conduzem a perdas de visão com impacto para a vida, são essenciais ensaios clínicos bem desenhados que avaliem o nível de risco.
Uma porta-voz da Novo Nordisk disse ao The Guardian: "A segurança dos doentes é a nossa principal prioridade, e levamos muito a sério quaisquer relatos de acontecimentos adversos associados ao uso dos nossos medicamentos. Trabalhamos em estreita colaboração com autoridades e entidades reguladoras de todo o mundo para monitorizar continuamente o perfil de segurança dos nossos produtos."
Acrescentou que os folhetos informativos para doentes na UE do Wegovy, Ozempic e Rybelsus foram actualizados para incluir a NAION, mas que "com base no conjunto total da evidência, concluímos que os dados não sugeriam uma possibilidade razoável de uma relação causal entre a semaglutida e a NAION e a Novo Nordisk acredita que o perfil benefício-risco da semaglutida se mantém favorável".
Barbara Pierscionek, Professora e Subdirectora, Investigação e Inovação, Anglia Ruskin University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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