Os suplementos desportivos são difíceis de evitar para quem treina com regularidade. Mesmo que não seja algo que lhe desperte interesse, é provável que o seu ginásio tenha cartazes a enaltecer os seus benefícios - ou que os seus amigos mais desportistas queiram falar do assunto.
Com tanta informação contraditória, nem sempre é simples perceber o que vale a pena tomar. A L-carnitina está entre os suplementos mais discutidos: há evidência de que pode apoiar a recuperação muscular e melhorar o desempenho no exercício, mas também existem estudos que indicam uma possível contribuição para a doença cardiovascular.
Num estudo recente, eu e os meus colegas concluímos que poderá ser possível atenuar os efeitos negativos da L-carnitina ao consumi-la em conjunto com romã.
O que é a L-carnitina e onde se encontra
Antes de mais, importa perceber o que é a L-carnitina. O organismo produz naturalmente pequenas quantidades deste composto - um processo que ocorre nos rins, no fígado e no cérebro.
Quando a L-carnitina foi identificada em humanos, em 1952, pensou-se que se tratava de uma vitamina e passou a ser designada por vitamina BT. Após anos de investigação, a L-carnitina é hoje considerada uma quasi-vitamina, uma vez que, para a maioria das pessoas, o corpo consegue produzir L-carnitina suficiente por si próprio.
Apesar disso, é possível comprar L-carnitina como suplemento alimentar. Além disso, alguns fabricantes adicionam este nutriente a bebidas energéticas e a certas proteínas em pó, numa tentativa de aumentar o valor percebido dos seus produtos. Regra geral, quando um produto contém L-carnitina, isso vem indicado de forma clara no rótulo - não é algo que as empresas procurem esconder.
Há também alimentos que contêm L-carnitina de forma natural, como a carne, e em quantidades muito pequenas nos lacticínios. A L-carnitina não é administrada ao gado; está presente no tecido muscular. Foi precisamente na carne que a L-carnitina foi identificada pela primeira vez, em 1905. Por isso, o nome carnitina deriva da palavra latina carnis, que significa "da carne".
Os efeitos nocivos dos suplementos de L-carnitina
Não se considera que a L-carnitina seja, por si só, intrinsecamente prejudicial. O problema associado aos riscos dos suplementos de L-carnitina está, sobretudo, relacionado com os microrganismos do intestino.
Menos de 20% da L-carnitina proveniente de suplementos é absorvida pelo corpo humano. A parte não absorvida continua a descer pelo trato gastrointestinal até chegar ao cólon. O cólon alberga biliões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus e fungos.
Quando os restantes 80% do suplemento de L-carnitina chegam ao cólon, esses microrganismos começam a absorver o nutriente e utilizam-no para produzir outro composto: a trimetilamina (TMA). A TMA é facilmente absorvida pelo organismo - e é aqui que podem surgir os efeitos potencialmente nocivos dos suplementos de L-carnitina.
Depois de absorvida, a TMA segue para o fígado através da corrente sanguínea. No fígado, a TMA é convertida em N-óxido de trimetilamina (TMAO). A investigação tem demonstrado que níveis elevados de TMAO no sangue podem contribuir para a doença cardiovascular.
Por exemplo, um grupo de investigação da Cleveland Clinic, nos EUA, administrou a participantes humanos um nutriente semelhante à L-carnitina que também é convertido em TMA pelos microrganismos intestinais. Os investigadores observaram que esse nutriente aumentou o risco de trombose (coágulos sanguíneos) nos participantes.
Ainda assim, a L-carnitina, em si, é um nutriente benéfico. Quando é produzida pelo nosso organismo - nos rins, no cérebro e no fígado - não é metabolizada pela microbiota intestinal e, por isso, não é convertida em TMAO. Além disso, o corpo consegue absorver mais L-carnitina a partir da carne do que a partir de suplementos, o que reduz o potencial de dano, já que menos quantidade acaba por chegar ao cólon.
A intervenção alimentar pode reduzir os efeitos nocivos
No laboratório da minha equipa, no Quadram Institute, em Norwich, Inglaterra, simulámos o que acontece quando um suplemento de L-carnitina entra em contacto com os microrganismos do cólon. Alimentámos uma cultura de microrganismos intestinais com L-carnitina e medimos a TMA produzida.
Em seguida, repetimos a experiência, mas fornecendo L-carnitina em conjunto com um extracto de romã, rico em polifenóis. Os polifenóis são compostos vegetais com propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-inflamatórias, que podem ajudar a manter a saúde e a proteger contra doenças.
Os principais polifenóis da romã pertencem a um grupo chamado elagitaninos - um tipo de polifenol que consegue chegar ao cólon praticamente intacto, onde pode interagir com a microbiota intestinal. Quando medimos a TMA produzida pelos microrganismos nesta segunda experiência, verificámos uma quantidade muito inferior.
Os nossos ensaios em laboratório mostram que um extracto de romã rico em polifenóis pode reduzir a produção microbiana de TMA e eliminar os efeitos potencialmente nocivos dos suplementos de L-carnitina.
As nossas experiências também indicaram que o extracto de romã diminui a produção de TMA. Os elagitaninos existem ainda em abundância noutros frutos e frutos secos, como as framboesas e as nozes.
Assim, se toma suplementos de L-carnitina, os nossos dados sugerem que pode ser uma boa ideia incluir na alimentação alimentos ricos em elagitaninos. Aumentar o consumo de fruta e frutos secos pode trazer benefícios para a saúde, pelo que a sua inclusão na dieta, à partida, será vantajosa de qualquer forma.
Ensaios em humanos: o próximo passo
A nossa equipa está agora a levar esta linha de investigação para fora do laboratório. Estamos a testar, em participantes humanos, quão eficaz é o extracto de romã na redução da produção de TMAO a partir de suplementos de L-carnitina.
Este estudo irá esclarecer se tomar um suplemento de L-carnitina em conjunto com um extracto de romã poderá ser melhor do que tomar o suplemento isoladamente.
Julia Haarhuis, doutoranda - Alimentação, Microbiomas e Saúde, Quadram Institute
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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