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Peso à nascença pode prever o stress renal após ultramaratonas extremas

Atleta exausto deitado enquanto é assistido por profissional de saúde num evento de corrida em pista exterior.

Um novo trabalho científico indica que o peso à nascença pode ajudar a antecipar o nível de esforço imposto aos rins após provas extremas de longa distância.

A investigação aponta que os limites da resistência poderão depender, em parte, de uma capacidade biológica moldada ainda antes do nascimento - e não apenas do treino e da força de vontade.

Em dois contextos de ultramaratona, análises de sangue recolhidas junto à meta revelaram que a sobrecarga renal não se distribuiu de forma uniforme entre os participantes.

A Dra. Alison A. Murray, antropóloga biológica da University of Victoria (UVic), na Colúmbia Britânica, registou um padrão que parece acompanhar os corredores até à idade adulta.

Os sinais mais baixos de dano concentraram-se em torno de 8 libras (cerca de 3,6 kg), ao passo que atletas nascidos com menor ou maior peso apresentaram aumentos mais marcados de creatinina depois de um esforço extremo.

Porque é que os rins ficam em dificuldade

Os resultados reforçam a ideia de que o rim é uma peça-chave da resistência, ajudando a explicar porque pode tornar-se um sistema limitador quando a carga fisiológica é muito elevada.

Durante corrida em condições extremas, os rins passam a receber menos sangue, porque os músculos e a pele exigem mais fluxo para obter oxigénio e dissipar calor.

No interior de cada rim, os néfrones - minúsculas unidades de filtração - limpam o sangue, equilibram água e sais e encaminham resíduos para a urina.

Provas longas podem sobrecarregar esse mecanismo com proteínas provenientes do músculo, fazendo subir no sangue a creatinina - um resíduo que os rins normalmente eliminam. Quando ao esforço se juntam calor ou desequilíbrios de hidratação, a mesma distância pode traduzir-se num desgaste consideravelmente maior.

Peso à nascença e capacidade renal

O peso ao nascer surgiu como um indicador surpreendentemente precoce, uma vez que a formação dos rins acontece, em grande medida, antes do parto.

Quando o crescimento fetal é insuficiente, podem formar-se menos unidades de filtração, deixando o rim adulto com menos margem de manobra.

A essa margem os investigadores chamam reserva funcional renal - capacidade extra de filtração disponível quando a exigência aumenta de forma súbita.

O estudo sugere que essa reserva poderá ser particularmente relevante quando o exercício deixa de ser “normal” e a necessidade de filtração adicional se torna extrema.

Foco no peso ao nascer

Entre 44 corredores, e após controlar outros factores medidos, a menor subida prevista de creatinina concentrou-se em torno de 8,4 libras (cerca de 3,8 kg) à nascença.

O padrão obtido foi uma curva em U - com o risco a aumentar nas duas extremidades - e não um alerta simples associado apenas a baixo peso.

Nos resultados brutos, 25 dos 44 atletas apresentaram alterações de creatinina suficientemente grandes para levantar preocupação com lesão renal aguda.

Essa preocupação significa que a função renal pode diminuir de forma súbita, permitindo que os resíduos se acumulem mais depressa do que o organismo os consegue eliminar.

O calor alterou a pressão

A influência do calor tornou o sinal renal mais evidente, apesar de a prova em ambiente frio ter causado mais dano muscular.

Na corrida com temperaturas elevadas, a creatinina subiu em média 0,5 miligramas por decilitro, face a 0,2 na prova em condições frias. Os participantes no calor também perderam mais massa corporal, e 35% terminaram com perdas superiores a 5%.

A hidratação manteve-se relevante no modelo final, o que indica que o historial ao nascer não elimina o risco do dia da prova nem os efeitos de erros simples de reposição de líquidos no percurso.

Os líquidos têm dois lados

As recomendações sobre ingestão de líquidos tornam-se complexas porque, durante exercício muito prolongado, o peso corporal não corresponde directamente à água corporal.

À medida que o glicogénio - combustível de hidratos de carbono armazenado - é gasto, alimentação, inchaço, suor e urina também influenciam a balança.

Ainda assim, perdas elevadas podem sinalizar desidratação, reduzindo o volume sanguíneo e o fluxo que chega aos filtros renais.

Ganhos acentuados também podem ser perigosos, porque beber em excesso pode diluir o sódio no sangue durante eventos de resistência.

Proteína muscular libertada após dano

O dano muscular pareceu intenso em ambos os cenários, mas não explicou o padrão observado no rim.

A prova no frio levou a níveis muito mais altos de mioglobina - uma proteína muscular libertada após lesão - do que a corrida no calor.

Mesmo assim, a creatinina aumentou mais com temperaturas elevadas, onde a perda de líquidos colocou pressão adicional sobre a filtração.

O desenho da prova terá contribuído, já que, no evento frio, os atletas transportaram equipamento sobre neve, com pouco sono, e sofreram esforço mecânico pesado durante horas.

Os limites da resistência humana começam cedo

O corpo humano reúne diversas características que favorecem a corrida de longa distância, desde tendões elásticos até à capacidade de arrefecer através do suor.

“Os humanos são frequentemente descritos como naturalmente talhados para a resistência, uma característica que se pensa ter evoluído durante períodos de caçadores-recolectores, quando deslocações de longa distância eram essenciais para a sobrevivência”, afirmou Murray.

As corridas extremas acrescentam, porém, uma nota de prudência a essa narrativa: os órgãos continuam a depender da capacidade individual. Um corpo adaptado ao movimento pode, ainda assim, atingir um ponto em que a reparação deixa de acompanhar o desgaste.

Limitações do estudo e investigação futura

Os corredores não devem encarar o peso à nascença como um número de “aprovado/reprovado” para desportos de resistência. A amostra liderada pela UVic foi pequena, o peso ao nascer foi auto-reportado e a maioria dos atletas veio de países industrializados.

“O nosso estudo coloca a questão de saber se existe algo como ‘excesso’ de exercício, e de que forma factores biológicos do início da vida podem moldar a resposta do corpo a exigências físicas extremas”, disse Murray.

Por agora, a lição prática é moderada: atletas de provas extremas precisam de aconselhamento médico personalizado, e não de bravatas iguais para todos, sobretudo em eventos com calor.

Peso à nascença, hidratação, temperatura e desenho da corrida passam, assim, a apontar para a resistência como uma negociação entre treino e reserva orgânica.

Trabalhos futuros, com grupos maiores e mais diversos, poderão transformar esta pista em rastreios mais seguros, melhor apoio em prova e orientações mais claras para desistência antes de os atletas chegarem à linha de partida.

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