Muita gente nos países ocidentais está a recorrer a fármacos para perda de peso como o Wegovy/Ozempic e o Mounjaro em tal escala que já começaram a surgir preocupações sobre a capacidade de manter stocks disponíveis.
Mas a popularidade traz também um olhar mais atento - e o aumento da procura não é o único possível desafio associado a estas injeções para emagrecer.
Efeitos gastrointestinais e outras preocupações conhecidas
Entre os efeitos secundários mais frequentes destes medicamentos - conhecidos como agonistas do recetor GLP-1 - estão queixas gastrointestinais como náuseas, vómitos e obstipação.
Há ainda o já famoso "rosto Ozempic" - um aspeto mais encovado e envelhecido que pode surgir quando a perda de peso é rápida.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer preocupações mais sérias, incluindo possíveis associações a doença ocular, diminuição da libido e um potencial aumento do risco de alguns cancros. Ainda assim, estamos numa fase inicial de compreensão destes riscos e, por agora, a evidência é limitada.
Como atuam a semaglutida (Wegovy/Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro)
Parte destas inquietações liga-se à própria forma como estes fármacos funcionam.
Wegovy e Ozempic são nomes comerciais de um agonista do recetor GLP-1 chamado semaglutida. Desenvolvida inicialmente para tratar a diabetes tipo 2, atua ao ativar recetores no pâncreas, aumentando a libertação de insulina e reduzindo o glucagon - uma hormona que eleva a glicemia.
Em conjunto, estes efeitos contribuem para baixar os níveis de açúcar no sangue. Já o emagrecimento resulta da capacidade do medicamento de atuar em recetores no cérebro e também no intestino e nas células adiposas, ajudando a reduzir o apetite.
O Mounjaro (nome comercial do composto tirzepatida) vai um pouco mais longe. Além de atuar no recetor GLP-1, atua também num segundo recetor - o recetor GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).
Ao estimular ambos, a tirzepatida aumenta a capacidade do pâncreas para produzir insulina e melhora a sensibilidade à insulina - isto é, as células do organismo respondem de forma mais eficaz à insulina, ajudando a regular a glicemia com maior eficiência. Esta ação dupla traduz-se numa perda de peso ainda maior do que com a semaglutida isoladamente, o que fez do Mounjaro a mais recente estrela no combate à obesidade.
Até ao momento, a tirzepatida não foi associada a um risco aumentado de cancro nos ensaios clínicos. No entanto, tal como acontece com outros fármacos GLP-1, mantém o aviso relativo ao cancro da tiroide com base em investigação prévia em animais.
Curiosamente, estudos preliminares em animais sugerem até que a tirzepatida poderá reduzir alguns tumores, incluindo cancro da mama, mas estes resultados são muito iniciais e ainda não podem ser aplicados a humanos.
O que se sabe sobre cancro e agonistas do recetor GLP-1
A preocupação oncológica mais relevante centra-se no cancro da tiroide. Em roedores, estudos identificaram que doses elevadas de medicamentos GLP-1 provocaram tumores da tiroide, embora isso não tenha sido demonstrado de forma definitiva em humanos.
Ainda assim, um estudo francês de grande escala encontrou uma possível ligação entre o uso de GLP-1 e cancro da tiroide, sobretudo em doentes que utilizaram o fármaco durante mais de um ano. Por precaução, estes medicamentos não são recomendados a pessoas com história pessoal ou familiar de cancro da tiroide, nem a quem tenha determinadas condições genéticas que aumentem o risco de tumores tiroideus.
Também existiram preocupações em torno do cancro do pâncreas, em grande medida devido a relatos iniciais de pancreatite: uma inflamação do pâncreas que, em alguns casos, pode ser fatal. No entanto, os estudos atuais não confirmaram uma ligação direta entre medicamentos GLP-1 e cancro pancreático.
A obesidade também é um risco de cancro
É importante não esquecer que a própria obesidade é um fator de risco bem estabelecido para vários cancros, incluindo cancro da mama, do cólon, do fígado e do útero. Ao ajudarem as pessoas a perder quantidades significativas de peso e a melhorar a saúde metabólica, os fármacos GLP-1 podem reduzir indiretamente o risco de desenvolver estas doenças.
De facto, alguns estudos populacionais observaram taxas mais baixas de cancros associados à obesidade em pessoas a tomar medicação GLP-1, quando comparadas com pessoas sob outros tratamentos.
Mesmo assim, continua por esclarecer se essa diminuição do risco de cancro se deve ao efeito do medicamento em si ou à perda de peso. Será necessária mais investigação para compreender totalmente esta relação.
O retrato atual é, portanto, tranquilizador, mas com uma margem de incerteza. O risco global de cancro associado a medicamentos GLP-1 e à tirzepatida parece ser baixo.
Ainda assim, importa sublinhar que estas terapêuticas não são recomendadas a pessoas com história pessoal ou familiar de certos tipos de cancro da tiroide, nem a quem tenha condições endócrinas como a síndrome de neoplasia endócrina múltipla, uma vez que estas situações podem aumentar a sensibilidade ao crescimento tumoral relacionado com hormonas.
As injeções para perda de peso não são isentas de riscos, mas têm também um potencial enorme. Ainda está por perceber se serão curas milagrosas ou apenas o capítulo mais recente numa longa história de tentativas de emagrecer.
Uma coisa é certa: esta conversa está longe de terminar.
Estes medicamentos estão a reescrever as regras sobre como pensamos o peso, a saúde e o risco. Na luta para vencer a balança, trazem esperança, ciência e também uma dose considerável de aposta em plena onda de entusiasmo.
Nadine Wehida, Professora Auxiliar em Genética e Biologia Molecular, Kingston University e Ahmed Elbediwy, Professor Auxiliar em Bioquímica Clínica / Biologia do Cancro, Kingston University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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