Investigadores identificaram que uma enzima associada à queima de gordura também contribui para manter a gordura corporal em bom estado, contrariando a ideia antiga de que funcionaria apenas como um interruptor para libertar combustível.
Esta descoberta ajuda a perceber por que motivo a perda dessa enzima pode reduzir o tecido adiposo e desencadear problemas metabólicos que se assemelham aos da obesidade.
Células de gordura e enzimas HSL
No interior de células de gordura de ratinho e de humanos, a enzima foi observada não só junto das reservas de gordura, mas também em zonas onde a actividade dos genes é regulada.
Ao seguir esse sinal, Dominique Langin, Ph.D., da Université de Toulouse, no sudoeste de França, mostrou que a lipase sensível às hormonas (HSL) desempenha duas funções distintas.
Essa segunda função ajuda a esclarecer por que razão a ausência da enzima não levou à “prisão” de gordura dentro das células, como muitos cientistas teriam antecipado.
O resultado aponta para um problema mais profundo no interior dos adipócitos: a capacidade de armazenar depende da saúde celular e não apenas do combustível já acumulado.
A gordura é activa
O tecido adiposo saudável - o principal tecido de armazenamento de gordura do organismo - guarda energia, produz hormonas e contribui para regular a química do sangue. As células predominantes nesse tecido, os adipócitos, acondicionam o excesso de energia em pequenas gotículas no interior de cada célula.
Nos intervalos entre refeições, sinais hormonais levam essas gotículas a libertar ácidos gordos, pequenas moléculas de combustível provenientes da gordura, para abastecer músculos e fígado.
Por isso, um armazenamento seguro depende de adipócitos funcionais, e não apenas da dimensão das reservas de gordura de uma pessoa.
HSL não é apenas uma enzima de queima de gordura
“Desde a década de 1960, a HSL é conhecida como uma enzima que mobiliza gordura”, afirmou Langin.
Essa narrativa sugeria um desfecho simples: se se removesse a HSL, a gordura deveria acumular-se, uma vez que as células deixariam de conseguir esvaziar as suas reservas.
No entanto, observações anteriores em ratinhos e em humanos indicaram o contrário: lipodistrofia - demasiado pouco tecido adiposo funcional - quando a HSL estava ausente ou comprometida.
Para resolver esta contradição, os investigadores voltaram-se para o núcleo, a estrutura que comanda a actividade genética.
Quando a gordura desaparece
A lipodistrofia parece o oposto da obesidade porque o organismo tem pouca massa gorda, e não excesso de gordura.
Apesar disso, em ambos os cenários as células adiposas podem falhar na tarefa de armazenar e libertar energia de forma adequada, levando à acumulação de açúcar e ácidos gordos no sangue.
Quando existe pouco tecido adiposo funcional, pode surgir resistência à insulina - uma resposta reduzida à hormona que ajuda a remover açúcar da circulação - e, como consequência, alterações na glicemia.
Este dano partilhado explica por que motivo uma enzima associada à perda de gordura continua a ser relevante para a investigação em obesidade.
As enzimas HSL têm outra função
O ponto decisivo surgiu quando a HSL foi detectada dentro do núcleo dos adipócitos, onde mudanças na actividade genética alteram o comportamento celular.
Nessa localização, a HSL associou-se a outras proteínas e ajudou a sustentar o programa biológico que mantém o tecido adiposo num tamanho saudável.
“Mas agora sabemos que também desempenha um papel essencial no núcleo dos adipócitos, onde ajuda a manter um tecido adiposo saudável”, disse Langin.
Com isso, a enzima passou a parecer menos um mecanismo de uma só função e mais um regulador da identidade das células adiposas.
Sinais que deslocam a HSL
A deslocação da HSL acontece porque a célula usa sinais hormonais para enviar a proteína entre tarefas diferentes.
Durante o jejum, a adrenalina contribuiu para activar a HSL e empurrá-la para fora do núcleo.
Fora do núcleo, a enzima voltou a aproximar-se das gotículas de gordura, onde facilitou a libertação de combustível armazenado para outros órgãos.
Em ratinhos, uma alimentação rica em gordura alterou esse equilíbrio, deixando mais HSL dentro do núcleo e sugerindo que a doença pode modificar o seu movimento.
Os genes sentem as mudanças
No núcleo, a enzima influenciou genes ligados às mitocôndrias - estruturas celulares que produzem energia utilizável - e também à arquitectura que envolve as células adiposas.
Quando os investigadores reduziram a HSL em adipócitos humanos, as mitocôndrias tornaram-se mais activas.
As mesmas células diminuíram sinais relacionados com a matriz extracelular, o material de suporte que as rodeia à medida que o tecido se expande.
Em conjunto, estes efeitos sugerem que a HSL nuclear equilibra a queima de combustível com a manutenção física do tecido adiposo.
A obesidade aumenta a pressão
A descoberta surge numa altura em que os casos de obesidade já sobrecarregam clínicas, famílias e orçamentos. Em todo o mundo, cerca de 2.5 billion adultos tinham excesso de peso em 2022, incluindo mais de 890 million a viver com obesidade.
Em França, 47.3 percent dos adultos apresentavam excesso de peso no Obepi-Roche - um inquérito nacional sobre tendências de peso em adultos. Isto corresponde a quase um em cada dois adultos.
Estes valores tornam a saúde das células adiposas mais do que um enigma, porque um armazenamento defeituoso pode agravar, ao longo do tempo, a diabetes e a doença cardíaca.
Um aviso para tratamentos
Este achado não significa que os médicos devam simplesmente aumentar ou diminuir a HSL no tecido adiposo.
Em experiências com ratinhos, a preservação de HSL no núcleo protegeu a massa gorda, mas um excesso de HSL nuclear agravou o controlo da glicemia.
Ainda é necessário que estudos em humanos confirmem se os mesmos padrões nucleares se observam em diferentes formas e fases de obesidade nas pessoas.
Terapêuticas futuras teriam de ajustar cuidadosamente tanto a localização como a quantidade, em vez de apenas ligar ou desligar a enzima.
Um alvo mais cuidadoso
A HSL passa agora a parecer menos uma ferramenta de “queima de gordura” e mais um regulador dinâmico que ajuda as células adiposas a armazenar, libertar, reparar ou utilizar combustível.
A investigação em obesidade pode aproveitar este conhecimento para colocar perguntas mais precisas sobre a qualidade celular, enquanto os tratamentos terão de respeitar o equilíbrio estreito que a enzima mantém no interior do tecido vivo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário