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O porta-aviões Fujian atravessa o Estreito de Taiwan em testes discretos

Porta-aviões militar em mar calmo com vários aviões de caça no convés e costa visível ao fundo.

A mais recente porta-aviões da China atravessou discretamente uma das vias marítimas mais tensas do mundo, reacendendo dúvidas sobre poder, segurança e calendário estratégico no Leste Asiático.

A passagem do Fujian pelo Estreito de Taiwan, apresentada oficialmente como um ensaio rotineiro, acontece numa fase de rivalidade cada vez mais vincada entre Pequim, Washington e parceiros regionais - e sugere que o maior navio de guerra chinês está a aproximar-se do estatuto de plena prontidão operacional.

Um novo gigante entra num mar já lotado

A China confirmou, na sexta-feira, que o Fujian, o seu porta-aviões mais avançado até hoje, transitou recentemente o Estreito de Taiwan a caminho do Mar do Sul da China, para realizar provas no mar e missões de treino.

O porta-voz da Marinha, o capitão Leng Guowei, afirmou que o navio estava a conduzir “testes de investigação científica” e treino entre diferentes regiões, garantindo que a viagem faz parte normal do desenvolvimento de um porta-aviões e não tem como alvo qualquer país.

A primeira viagem de longa distância do Fujian indica que o terceiro porta-aviões da China está a passar de peça de estaleiro para instrumento activo de projecção de poder.

O Estreito de Taiwan - o corredor de água estreito que separa a China continental de Taiwan, autogovernada - é um dos pontos mais sensíveis do planeta. Qualquer novo movimento ali por grandes navios de guerra é acompanhado ao detalhe não apenas em Taipé e Pequim, mas também em Washington, Tóquio e noutros centros de decisão.

Taipé acompanha e “responde em conformidade”

As autoridades de defesa de Taiwan disseram que monitorizaram os movimentos do Fujian e dos navios que o acompanhavam, recorrendo a uma combinação de embarcações, aeronaves e sistemas baseados em terra.

Taipé referiu que procurou ter “plena consciência da situação” e que “respondeu em conformidade”, sem avançar pormenores sobre contramedidas ou eventuais operações de acompanhamento.

Pequim considera Taiwan uma província dissidente que deverá, em última instância, ficar sob o seu controlo, e não excluiu o recurso à força. A ilha, com governo democrático e forças armadas próprias, rejeita a pretensão de soberania de Pequim.

Cada trânsito militar no Estreito tem uma mensagem política, mesmo quando é descrito como treino rotineiro.

Nos últimos anos, a China intensificou a actividade aérea e naval em redor de Taiwan, incluindo exercícios de grande escala que simulam bloqueios e ataques de precisão. Estas operações procuram, ao mesmo tempo, demonstrar determinação e desgastar umas forças armadas taiwanesas mais pequenas.

O Japão detecta o Fujian perto de ilhas disputadas

O Ministério da Defesa do Japão comunicou que as suas forças avistaram, na quinta-feira, o Fujian acompanhado por dois contratorpedeiros, a cerca de 200 quilómetros a noroeste das Ilhas Senkaku.

Conhecidas na China como Diaoyu, estas ilhotas desabitadas são administradas por Tóquio, mas reclamadas por Pequim, o que faz da zona mais um foco de fricção entre as duas potências asiáticas.

A marinha japonesa seguiu o grupo do porta-aviões enquanto este se deslocava para sudoeste, reforçando a ideia de que o navio começa a operar com maior liberdade em águas disputadas, em vez de se manter junto ao litoral chinês.

A frota de porta-aviões da China cresce em ambição

Antes do Fujian, a China tinha dois porta-aviões em serviço activo:

  • Liaoning – um casco ex-soviético comprado à Ucrânia em 2000 e posteriormente modernizado, usado sobretudo como plataforma de treino e experimentação.
  • Shandong – o primeiro porta-aviões construído na China, comissionado em 2019, que participou em exercícios em torno de Taiwan, incluindo um bloqueio simulado nesta primavera.

Ambos recorrem a sistemas de descolagem mais antigos, com rampa em salto de esqui, que limitam o peso e a carga de combustível das aeronaves à saída. O Fujian altera essa equação.

Porque é que o Fujian se destaca

O Fujian é propulsionado de forma convencional e prevê-se que transporte até 50 aeronaves, incluindo caças, aviões de alerta antecipado e helicópteros.

Analistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, afirmam que o porta-aviões deverá usar um sistema de catapultas avançado, provavelmente electromagnético, semelhante em conceito ao que está instalado nos mais recentes porta-aviões da Marinha dos EUA da classe Ford.

Catapultas mais potentes permitem descolar com mais armas e mais combustível, aumentando alcance e poder de fogo.

Só esta melhoria técnica pode mudar a distância a que os caças chineses baseados em porta-aviões conseguem operar e a quantidade de armamento que transportam, sobretudo num conflito que se estenda pelo Pacífico ocidental.

Porta-aviões Origem Sistema de lançamento Função
Liaoning Ex-soviético, modernizado na China Rampa em salto de esqui Treino, operações básicas de porta-aviões
Shandong Construído na China Rampa em salto de esqui Dissuasão regional, exercícios sobre Taiwan
Fujian Construído na China Catapultas avançadas (previstas) Projecção de poder, operações de longo alcance

Um navio com o nome de uma província de linha da frente

O Fujian recebe o nome da província costeira chinesa situada directamente em frente a Taiwan - uma escolha simbólica que não passou despercebida em Taipé nem em Washington.

É também o maior navio de guerra alguma vez construído pela China, sublinhando o quanto a sua indústria naval evoluiu em apenas duas décadas.

O porta-aviões realizou as primeiras provas no mar em 2024. Cada fase de ensaios verifica propulsão, navegação, sistemas de combate e operações de lançamento de aeronaves, podendo revelar problemas que exijam reparações prolongadas no porto.

Pequim afirma que o programa de porta-aviões é defensivo e diz que os objectivos são pacíficos, centrados na protecção da “soberania nacional” e das rotas marítimas. Ainda assim, o Fujian dá à China um instrumento mais credível para actuar mais longe de casa, do Oceano Índico ao Pacífico central.

Um mistério deliberado em torno do comissionamento

A China não anunciou quando o Fujian entrará em serviço pleno. Especialistas militares admitem que a data possa ser escolhida com intenção simbólica, possivelmente associada a um grande aniversário nacional.

O comentador militar chinês Zhang Junshe, escrevendo em meios ligados ao Estado, defendeu que a primeira viagem prolongada do navio mostra que o comissionamento se aproxima, embora ainda falte treino significativo e afinação de procedimentos.

Levar um porta-aviões a um nível real de prontidão de combate é um processo demorado. As alas aéreas têm de dominar rotinas de convés, as cadeias logísticas precisam de ser testadas, e os navios de escolta devem treinar como grupo sob diferentes condições meteorológicas e níveis de ameaça.

O que isto significa para o equilíbrio de poder

A evolução do Fujian insere-se numa disputa mais ampla entre a China e a rede de alianças liderada pelos EUA no Indo-Pacífico. Durante muito tempo, os porta-aviões norte-americanos foram o principal símbolo de supremacia na região.

O alargamento da frota chinesa de porta-aviões acrescenta complexidade aos planeadores em Washington, Tóquio, Camberra e Nova Deli, que passam a incluir grupos de porta-aviões chineses em jogos de guerra e cenários de crise.

Um terceiro porta-aviões dá a Pequim mais opções: operações simultâneas junto de Taiwan, no Mar do Sul da China e no Pacífico ocidental.

Num cenário de crise em Taiwan, um Fujian totalmente operacional poderia apoiar operações aéreas a leste da ilha, dificultando qualquer esforço dos EUA e aliados para reforçar a defesa taiwanesa ou quebrar um bloqueio.

Termos-chave que moldam o debate

Dois conceitos surgem frequentemente nas discussões sobre o Fujian e o Estreito de Taiwan:

  • Dissuasão – a capacidade de convencer um rival de que iniciar um conflito teria um custo demasiado elevado. Uma frota de porta-aviões maior e mais capaz reforça, no papel, a dissuasão da China, mas também pode alarmar vizinhos e levá-los a rearmar-se.
  • Negações de acesso/negações de área (A2/AD) – estratégias destinadas a manter forças adversárias, sobretudo porta-aviões e aeronaves dos EUA, à distância através de mísseis, submarinos e defesas aéreas. O Fujian encaixa na resposta chinesa ao poder naval dos EUA, mas os planeadores norte-americanos também ponderam como o atacar numa crise.

Alguns analistas sustentam que, à medida que a China acrescenta activos de grande visibilidade como o Fujian, essas plataformas passam elas próprias a ser alvos tentadores. Num conflito, ambas as partes podem sentir pressão para atacar primeiro, antes que o outro lado consiga empregar decisivamente navios deste tipo.

Riscos e cenários no horizonte

A travessia do Fujian pelo Estreito de Taiwan não gerou uma escalada imediata, mas cada nova viagem traz risco. Um eco de radar mal interpretado, uma intercepção agressiva por um caça ou uma colisão no mar pode desencadear uma espiral de acusações e alertas militares.

Governos da região investem em linhas directas de crise, protocolos de comunicação e exercícios conjuntos para reduzir esses perigos. Ao mesmo tempo, as capacidades exibidas - de mísseis hipersónicos a porta-aviões avançados - aumentam o que está em jogo sempre que marinhas operam em proximidade.

Por enquanto, o Fujian continua na fase de ensaios, mas o trajecto pelo Estreito de Taiwan já deixou um sinal inequívoco: as ambições chinesas de operar em alto-mar deixaram de ser teóricas, e o tabuleiro estratégico em torno de Taiwan está a ficar mais cheio - e mais finamente equilibrado - mês após mês.

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