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Colutório: pode mesmo aumentar a pressão arterial e afectar a saúde do coração?

Jovem sentado numa casa de banho a beber colutório, com imagem de um coração e aparelho de pressão na bancada.

Há vídeos nas redes sociais a garantir que o colutório pode aumentar o risco de pressão arterial elevada - e até prejudicar a saúde do coração.

De acordo com alguns desses conteúdos, o problema estaria em o colutório eliminar bactérias orais “boas” que seriam importantes para o sistema cardiovascular.

A mensagem chama a atenção, mas não é caso para deitar já o seu colutório fora: a realidade é bastante mais complexa.

Microbioma oral e óxido nítrico

A nossa boca alberga muitos tipos de bactérias. Em conjunto, formam um microbioma equilibrado e diversificado que ajuda a evitar o crescimento excessivo de microrganismos associados à doença, apoia funções metabólicas normais e contribui tanto para a saúde oral como para a saúde geral.

Um dos papéis relevantes destas bactérias orais é transformar o nitrato presente na alimentação (muitas vezes proveniente de fontes como os vegetais de folha verde) em nitrito.

Quando engolimos nitrito, o organismo converte-o em óxido nítrico. Este processo ocorre através da via nitrato–nitrito–óxido nítrico, também conhecida como via enterossalivar. É um exemplo de como as bactérias podem contribuir para a manutenção da saúde.

O óxido nítrico é fundamental para a regulação da pressão arterial e também dá suporte ao funcionamento do cérebro e dos músculos.

Ainda assim, alguns influenciadores online afirmam que o colutório faz mal ao coração por afectar as bactérias “saudáveis” - precisamente as que participam na produção de óxido nítrico.

Ligação entre colutório e saúde do coração

Vários estudos pequenos observaram que a utilização de colutório pode alterar o equilíbrio bacteriano na boca. Isso pode diminuir a capacidade dessas bactérias de converter nitrato (por exemplo, o que vem dos vegetais) em nitrito - um passo de que o corpo precisa para produzir óxido nítrico.

Num estudo com 19 voluntários saudáveis, os adultos que usaram um colutório com clorexidina durante 7 dias apresentaram um pequeno aumento da pressão arterial e níveis mais baixos de nitrito.

Um estudo de intervenção também indicou que bochechar 2 vezes por dia, durante 1 semana, com 0.12% de gluconato de clorexidina aumentou significativamente a pressão arterial em 27 adultos saudáveis.

Noutro ensaio, com 15 adultos que já tinham hipertensão, 3 dias de utilização de clorexidina elevaram ainda mais a pressão arterial.

Um pormenor essencial - e que pode não ser referido em alguns vídeos nas redes sociais - é qual era o tipo de colutório utilizado nestes trabalhos.

Muitos dos estudos que encontraram uma associação entre colutório e pressão arterial administraram clorexidina aos participantes. Trata-se de um anti-séptico potente, vendido sem receita, mas recomendado apenas por curtos períodos em pessoas com doença gengival ou após procedimentos dentários, quando os seus efeitos antimicrobianos são úteis.

A clorexidina perturba as bactérias da boca para ajudar no controlo de infecções - incluindo as que convertem nitrato em nitrito. Por isso, é um colutório muito adequado para investigadores que pretendem estudar a via nitrato–nitrito–óxido nítrico.

Ao mesmo tempo, isto significa que os resultados podem não representar o que acontece com colutórios mais suaves, de uso quotidiano.

Colutórios suaves versus colutórios mais fortes

Num ensaio com 12 adultos saudáveis, avaliou-se o impacto de 3 colutórios diferentes (e de bochechos com água, como controlo) sobre as bactérias orais.

Depois de beberem um sumo rico em nitratos, os investigadores mediram quanto nitrato era convertido em nitrito pelas bactérias da boca. A água e um colutório suave (sem ingredientes agressivos como a clorexidina) produziram a resposta habitual, com conversão de nitrato em nitrito.

Já o colutório com cloreto de cetilpiridínio (também com forte acção antibacteriana) bloqueou parcialmente essa conversão de nitrato em nitrito. O colutório mais forte com clorexidina quase interrompeu por completo o processo.

Isto está de acordo com o facto de terem efeitos antibacterianos mais intensos. Os colutórios mais fortes também foram associados a pressão arterial sistólica mais elevada.

O álcool (etanol) é outro ingrediente frequente em muitos colutórios, embora as fórmulas costumem incluir também outros componentes activos - como óleos essenciais. Assim, torna-se difícil separar o efeito específico do álcool.

Por ser antimicrobiano, o álcool pode influenciar o microbioma oral. Alguns estudos chegaram a sugerir uma possível associação entre colutórios com álcool e um risco acrescido de cancro oral.

No entanto, neste momento não existem estudos que tenham analisado especificamente os efeitos de bochechos com etanol como único ingrediente (etanol apenas) no microbioma oral ou na saúde cardiovascular.

No conjunto, a evidência disponível aponta que um colutório suave, sem receita - do tipo que a maioria das pessoas compra nas lojas - terá menor probabilidade de interferir de forma relevante com a conversão de nitrato em nitrito ou de afectar a pressão arterial.

Num estudo de longa duração com 354 adultos, uma melhor higiene oral de rotina - como escovar os dentes e usar fio dentário - associou-se a menor risco de morte cardiovascular ao longo de quase 19 anos. O uso regular de colutório não pareceu influenciar os desfechos relacionados com a saúde do coração.

Isto verificou-se tanto com colutórios mais suaves que continham fluoreto e álcool como com colutórios antibacterianos mais fortes, como os de clorexidina e cloreto de cetilpiridínio.

O tipo de colutório é importante

Em conjunto, estes estudos sugerem que alguns colutórios (como os de clorexidina), quando usados a longo prazo, perturbam bactérias orais benéficas e a via nitrato–nitrito–óxido nítrico.

Ainda assim, é necessária mais investigação para compreender realmente os efeitos a longo prazo de outros tipos de colutório na saúde cardiovascular - incluindo marcas suaves de uso diário e fórmulas que contêm álcool.

Como escolher e usar colutório com bom senso

Existem diferentes colutórios para objectivos distintos, pelo que vale a pena confirmar o ingrediente activo no verso da embalagem. As opções sem álcool e mais suaves parecem afectar menos as bactérias benéficas para o coração do que as versões mais fortes.

Apesar disso, convém ler a lista de ingredientes, porque mesmo alternativas sem álcool podem incluir agentes antibacterianos como o cloreto de cetilpiridínio.

Por isso, o mais prudente é escolher um colutório adequado às suas necessidades e utilizá-lo com moderação. Os colutórios fortes com clorexidina ficam melhor reservados para ajudar em situações de doença gengival ou infecções orais.

Também importa lembrar que a saúde oral - e infecções não tratadas - pode contribuir para a doença cardíaca de forma mais ampla.

Por exemplo, uma revisão sistemática de 82 estudos concluiu que a doença oral crónica e a perda de dentes estavam associadas ao risco de problemas cardíacos. É por isso que manter um equilíbrio saudável de bactérias na boca é relevante para lá dos dentes.

Cuide da sua saúde oral e global mantendo a escovagem, o uso de fio dentário, as visitas ao dentista e escolhendo um colutório que funcione para si.

Joanna L'Heureux, Investigadora de Pós-Doutoramento, Saúde Pública e Ciências do Desporto, Universidade de Exeter

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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