Cientistas têm estado a testar um extrato vegetal mais conhecido por adoçar produtos de dieta e, em resultados iniciais em animais, tudo indica que poderá reforçar um dos poucos tratamentos existentes para a calvície.
De refrigerantes a folículos
A planta no centro deste trabalho é a stévia, um adoçante natural que começou por ser usado por comunidades indígenas na América do Sul, sobretudo na Bolívia e no Paraguai. Atualmente, a indústria alimentar junta-a a refrigerantes, iogurtes e gelados para reduzir o açúcar sem perder o sabor doce.
A stévia já gerou uma discussão acesa sobre quanto é que, afinal, deveríamos consumir. Esse debate continua. Ainda assim, o estudo mais recente analisa um lado completamente diferente: não o efeito na cintura, mas o possível impacto no cabelo.
A investigação, publicada a 7 de outubro de 2025 na revista Materiais Avançados para a Saúde, centra-se no esteviosídeo, um dos compostos naturais da stévia. Em vez de o colocar em alimentos, a equipa científica aplicou-o num pequeno dispositivo médico pensado para combater a alopecia androgenética, mais conhecida como calvície de padrão masculino e feminino.
Em ratos com calvície, um tratamento de 35 dias que incluía um derivado da stévia levou ao recrescimento de cabelo em cerca de dois terços do couro cabeludo anteriormente sem pelo.
Para simular uma zona calva, os investigadores raparam propositadamente e danificaram quimicamente áreas de pele dos ratos. Após pouco mais de um mês de tratamento, os animais apresentaram cerca de 67.5% de cobertura capilar em locais que, antes, estavam praticamente lisos.
Como um medicamento para a tensão arterial se tornou aliado do cabelo
Para perceber por que isto é relevante, ajuda conhecer a história pouco habitual do minoxidil. O fármaco foi desenvolvido, nos anos 1970, para tratar a hipertensão. Os médicos repararam num efeito secundário inesperado: alguns doentes começaram a ganhar cabelo mais espesso, inclusive no couro cabeludo.
As empresas farmacêuticas não tardaram a reaproveitá-lo como loção ou espuma de aplicação local para a queda de cabelo. Hoje, continua a ser um dos poucos tratamentos amplamente aprovados para a calvície de padrão, vendido sem receita em muitos países.
O grande ponto fraco do minoxidil está na forma como é administrado. Quando aplicado em líquido ou espuma, nem sempre atravessa a pele de forma suficientemente profunda ou consistente. Há quem tenha benefícios modestos; outros quase não veem qualquer diferença. Além disso, muitos utilizadores desistem porque a aplicação tem de ser diária durante meses ou anos.
A nova investigação não substitui o minoxidil; procura ajudar o medicamento a chegar onde precisa e a manter-se lá por mais tempo.
O papel escondido da stévia: microagulhas feitas a partir de um adoçante
A principal inovação do estudo é um adesivo com microagulhas. Estas microagulhas são feitas de esteviosídeo (o composto da stévia) e carregadas com minoxidil. Ao ser pressionado contra o couro cabeludo, o adesivo perfura apenas as camadas mais superficiais da pele, sem atingir nervos ou vasos sanguíneos mais profundos.
À medida que as microagulhas à base de esteviosídeo se vão dissolvendo, libertam o minoxidil diretamente na zona dos folículos pilosos, em vez de deixar a maior parte do fármaco inutilizada à superfície.
O que este novo adesivo pretende fazer
- Levar o minoxidil para dentro do couro cabeludo através de microagulhas dissolúveis
- Libertar o fármaco de forma lenta ao longo do tempo, prolongando a ação
- Diminuir a necessidade de aplicações diárias e pouco práticas de líquido ou espuma
- Usar um material biodegradável de origem vegetal, em vez de metal ou plástico
Segundo o estudo, esta combinação - um fármaco conhecido contra a queda de cabelo mais um adesivo de microagulhas derivadas da stévia - gerou um recrescimento mais forte em ratos do que o minoxidil isoladamente. Nos animais que receberam o novo adesivo, o pelo reapareceu de forma mais densa e mais uniforme nas zonas tratadas.
As microagulhas à base de stévia funcionaram como um “sistema de reforço”, aumentando a absorção cutânea do minoxidil e prolongando a sua atividade por dias em vez de horas.
Porque resultados em ratos não garantem cabelo em humanos
Como acontece com muitos títulos chamativos sobre calvície, há ressalvas importantes. Até ao momento, os testes foram feitos apenas em ratos, não em pessoas. A pele dos ratos é mais fina, os ciclos do pelo são mais curtos e os medicamentos podem comportar-se de forma diferente no organismo.
Nos humanos, a calvície de padrão está também associada a hormonas, genética e envelhecimento. O modelo animal usado no estudo reproduz parte da perda, mas não consegue replicar toda a complexidade dos folículos pilosos humanos.
Os investigadores sublinham que é necessário muito mais trabalho antes de alguém pensar em colocar dispositivos à base de stévia na cabeça. A segurança terá de ser avaliada com rigor: como reage o couro cabeludo, se o uso repetido provoca irritação ou alergia e o que acontece no resto do corpo à medida que o material se dissolve.
Por agora, o estudo serve como prova de conceito: microagulhas de origem vegetal podem transportar um fármaco conhecido para mais perto dos folículos e melhorar o seu efeito em animais.
O que isto pode significar para futuros tratamentos da calvície
Mesmo que este adesivo específico nunca chegue às farmácias, o princípio pode alterar a forma como os fármacos para o cabelo são administrados. Se as microagulhas conseguirem levar a medicação em segurança para mais perto dos folículos, poderão ser necessárias doses mais baixas e os efeitos secundários fora do couro cabeludo poderão diminuir.
As opções atuais para a calvície de padrão são limitadas. Incluem:
- Minoxidil tópico - aplicado no couro cabeludo uma ou duas vezes por dia; funciona em algumas pessoas, não em todas.
- Comprimidos de finasterida - geralmente prescritos para homens; podem causar efeitos secundários sexuais e hormonais.
- Cirurgia de transplante capilar - eficaz, mas cara, invasiva e não indicada para toda a gente.
- Capacetes e dispositivos laser - muito divulgados, mas com evidência mista e, muitas vezes, financiada pela indústria.
Um adesivo minimamente invasivo com microagulhas dissolúveis poderia posicionar-se algures entre loções diárias e procedimentos cirúrgicos. Dependendo do tempo durante o qual as microagulhas conseguem libertar o fármaco, poderia ser usado a cada poucos dias ou de semana a semana.
Perguntas que quem tem queda de cabelo provavelmente fará
Beber refrigerantes com stévia faz crescer o cabelo?
A resposta curta é não. Os resultados promissores resultam de minoxidil administrado por microagulhas feitas de um composto purificado da stévia e aplicadas diretamente no couro cabeludo. A stévia ingerida em alimentos ou bebidas não atua sobre os folículos da mesma forma.
A dose, a forma química e a via de administração são decisivas. O que passa pelo sistema digestivo é degradado e distribuído por todo o corpo. O adesivo experimental evita por completo a digestão e atua localmente na pele.
Isto poderia ajudar mulheres e homens?
A alopecia androgenética afeta ambos os sexos, embora com padrões diferentes. Nas mulheres, é mais comum o afinamento difuso do cabelo do que uma linha frontal a recuar. Como o minoxidil já é utilizado por mulheres, qualquer método de administração que o torne mais eficaz no couro cabeludo poderá, em teoria, ser relevante tanto para homens como para mulheres.
Ensaios em humanos teriam de incluir participantes de ambos os sexos e acompanhar diferenças de resposta, efeitos secundários e preferências de esquemas de dosagem.
Compreender alguns termos-chave
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Alopecia androgenética | Queda de cabelo hereditária comum influenciada por hormonas, muitas vezes chamada calvície de padrão masculino ou feminino. |
| Minoxidil | Fármaco inicialmente usado para a hipertensão, mais tarde adotado como tratamento tópico para o afinamento capilar. |
| Adesivo de microagulhas | Pequeno adesivo coberto de agulhas microscópicas que penetram sem dor nas camadas superiores da pele para administrar medicamentos. |
| Esteviosídeo | Uma das moléculas de sabor doce naturalmente presentes na planta stévia, aqui usada como material para microagulhas. |
Riscos, incógnitas e o que se segue
Qualquer dispositivo que perfure a pele, mesmo que de forma suave, levanta dúvidas sobre infeção, inflamação e tolerância a longo prazo. As agulhas derivadas da stévia dissolvem-se, o que evita o problema de fragmentos que se partem e ficam retidos na pele, mas a utilização repetida nas mesmas áreas exige testes cuidadosos.
Outra incógnita é o custo. Se o adesivo depender de fabrico complexo ou de compostos vegetais de elevada pureza, poderá sair mais caro do que as espumas e loções atuais. Isso pode torná-lo inacessível para muitas pessoas, a menos que seguradoras ou sistemas públicos de saúde considerem que traz benefícios claros.
Há ainda o lado psicológico. Quem sofre de queda de cabelo é frequentemente alvo de produtos duvidosos que prometem resultados irrealistas. Um adesivo novo, de origem vegetal e “alta tecnologia” pode ser facilmente exagerado antes de existirem provas sólidas em humanos.
Para quem se sentir tentado por manchetes precoces, o mais seguro é encarar isto como uma técnica interessante em fase inicial, e não como uma cura garantida à venda na prateleira das bebidas.
Cenários práticos se o adesivo acabar por funcionar
Se estudos futuros em humanos confirmarem segurança e benefício, dermatologistas poderão usar adesivos de microagulhas à base de stévia em conjunto com tratamentos já existentes. Uma pessoa nos 30 anos que note afinamento no vértex poderá, por exemplo, receber um plano com adesivos de duas em duas semanas, combinado com minoxidil tópico convencional entre sessões.
Quem tem dificuldade em manter aplicações diárias ou detesta a sensação oleosa das loções poderá preferir regimes apenas com adesivo, sob supervisão clínica. O desenho de libertação lenta pode significar menos picos e quebras nos níveis do fármaco, o que poderia traduzir-se numa manutenção capilar mais estável.
Os investigadores poderão também adaptar a mesma tecnologia de microagulhas para transportar outros fármacos: desde compostos anti-inflamatórios para condições do couro cabeludo até moléculas experimentais que atuem diretamente nas vias de sinalização dos folículos pilosos.
Por agora, porém, esta participação improvável da stévia na investigação capilar serve de lembrete: por vezes, pequenas melhorias na forma como se administra um fármaco antigo podem ser tão intrigantes como criar um medicamento novo a partir do zero.
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