Os protetores solares têm atravessado semanas difíceis. No início deste ano, testes realizados para a organização de consumidores Choice concluíram que vários protetores solares não estavam a fornecer a proteção solar que seria de esperar.
Um dos produtos anunciava um fator de proteção solar (SPF) de 50+, mas, quando foi testado, apresentou um SPF tão baixo como 4.
A partir daí, desencadeou-se uma cadeia de acontecimentos: alguns fabricantes suspenderam a venda ou recolheram produtos, e outras recolhas foram surgindo entretanto.
Paralelamente, investigações mediáticas levantaram suspeitas sobre a forma como os protetores solares são testados e formulados.
Esta semana, a Therapeutic Goods Administration (TGA) afirmou que vários protetores solares partilham uma “fórmula de base” produzida por um único fabricante. A entidade acrescentou que testes preliminares indicam que alguns protetores solares feitos com essa mesma fórmula de base podem ter um SPF tão baixo como 4.
Não surpreende, por isso, que muitos consumidores estejam confusos sobre se o protetor solar que usam, na prática, funciona.
A seguir, explicamos o que se sabe sobre o anúncio desta semana da TGA e o que poderá estar na origem desta situação.
Porque é que o SPF do protetor solar preocupa?
Desde que os valores de SPF passaram a ser usados, tornaram-se um sinal simples para o consumidor perceber que nível de proteção solar pode esperar.
Ainda assim, medir o SPF de um produto não é simples. O ensaio mais comum aplica protetor solar na pele de pessoas reais, expõe essa pele a radiação ultravioleta (UV) e, ao longo do tempo, avalia quanta vermelhidão se desenvolve.
Como a pele não reage de forma igual em todas as pessoas e como laboratórios e equipas de teste podem trabalhar de modo diferente, os resultados podem variar. Por exemplo, um produto pode apresentar um SPF elevado num laboratório, mas revelar uma proteção substancialmente inferior quando é avaliado noutro.
Mesmo um protetor solar com um SPF abaixo do declarado pode continuar a oferecer alguma proteção. No entanto, aumenta a probabilidade de queimadura solar, de danos no ADN e de desenvolvimento de cancro da pele.
O que é uma “fórmula de base”?
As preocupações mais recentes da TGA centram-se numa “fórmula de base” comum a vários protetores solares. Esta fórmula (também designada por núcleo ou veículo) funciona como a estrutura do protetor solar e pode incluir:
- solventes/líquidos transportadores (água, óleos, silicones)
- emulsionantes, tensioativos e estabilizadores (que permitem misturar os componentes e evitam a separação)
- espessantes ou géis
- conservantes e antioxidantes
- pigmentos, tonalizantes, fragrâncias e melhoradores de textura.
A esta base juntam-se outros ingredientes, sobretudo filtros UV. Em alguns casos, a própria base pode ser vendida a terceiros já com os filtros UV incorporados.
Há produtos que ainda incluem componentes adicionais, como fotoestabilizadores, para ajudar os filtros UV a manterem-se eficazes por mais tempo quando expostos ao sol.
Para funcionar bem, esta base tem de cumprir várias funções em simultâneo. Precisa de:
- distribuir os filtros UV de forma uniforme (sem grumos nem separação)
- manter-se estável ao longo do tempo
- proteger os filtros UV contra a degradação causada pelo sol
- continuar a ter uma sensação agradável na pele (espalhar facilmente e aderir bem).
Muitas marcas recorrem à mesma base e introduzem apenas pequenas alterações, por exemplo na cor ou no aroma.
Apesar de os filtros UV serem essenciais, não conseguem desempenhar corretamente o seu papel sem uma base robusta e bem concebida. Assim, qualquer produto assente numa fórmula de base fraca ou com defeitos arrisca-se a ter um desempenho inferior ao esperado. E, como vários protetores solares podem partilhar essa mesma base, os impactos podem alargar-se a muitos produtos e marcas.
A TGA identificou, pelo menos, 21 produtos que utilizam a mesma fórmula de base.
Como pode falhar uma fórmula de base?
Não é público o motivo exato pelo qual a TGA está preocupada com esta fórmula de base em particular. Ainda assim, de forma geral, uma fórmula de base pode falhar por diversas razões, incluindo:
- dispersão deficiente ou agregação: os filtros UV podem formar grumos ou sedimentar, deixando zonas sem proteção
- fotodegradação: sem estabilizadores eficazes, os filtros degradam-se com a luz solar
- incompatibilidade química: aditivos, pigmentos ou fragrâncias podem reagir de forma desfavorável com os filtros UV
- diluição por ingredientes inertes: excesso de “enchimento” reduz a concentração efetiva de filtros UV ativos
- instabilidade física: com o tempo, a fórmula pode separar-se, alterar a viscosidade ou cristalizar
- stress no fabrico ou na embalagem: mistura insuficiente, exposição ao calor ou à luz durante a produção, ou embalagens deficientes podem degradar a base.
Ainda assim, isso não significa que todos os produtos que recorrem a essa base vão necessariamente falhar. O desempenho e a proteção resultante podem variar consoante pequenos ajustes na composição, o rigor durante o fabrico, diferenças entre lotes e as condições de armazenamento.
Como confirmar se o meu protetor solar está envolvido?
A TGA disponibiliza no seu site informação sobre marcas e produtos afetados - tal como a Choice.
As marcas abrangidas podem também publicar avisos de recolha, ofertas de reembolso e detalhes por lote.
Outra opção é contactar a empresa, indicar o número de lote e perguntar se a sua unidade está incluída.
E se a minha marca estiver afetada?
Se o seu protetor solar estiver abrangido:
- não o use como referência de proteção solar, sobretudo em exposições prolongadas
- devolva-o no local onde o comprou, para reembolso ou substituição; algumas marcas estão a oferecer reembolsos ou vales
- acompanhe novas atualizações da TGA, porque a lista de recolhas pode crescer à medida que as investigações avancem
- fale com um profissional de saúde se estiver preocupado com danos na pele ou com exposição solar passada.
Qual é a mensagem principal?
Estes problemas recentes não significam que todos os protetores solares sejam pouco fiáveis. No entanto, sublinham a importância do desenho do produto, da formulação e das verificações regulamentares. As investigações da TGA podem, inclusivamente, conduzir a testes mais robustos, padrões de formulação mais exigentes e orientações mais claras para os consumidores.
Ainda assim, enquanto não houver uma visão completa de todas as marcas afetadas, pode ser sensato optar por marcas de confiança - aquelas que publicam resultados de testes, atuam com transparência e têm boa reputação.
Por fim, o protetor solar é apenas uma parte da proteção contra o sol. Reforce as defesas: use também roupa protetora, chapéu e óculos de sol, procure sombra e, se possível, evite permanecer ao sol por períodos prolongados.
Mike Climstein, Professor Associado, Faculdade de Saúde, Southern Cross University; Michael Stapelberg, Professor Associado Adjunto, Faculdade de Saúde, Southern Cross University; e Nedeljka Rosic, Docente Sénior, Faculdade de Saúde, Southern Cross University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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