Saltar para o conteúdo

Gel de testosterona reduz gordura visceral na recuperação de fractura da anca em mulheres idosas

Mulher sénior a caminhar no corredor de hospital com muletas, raio-X de coluna e papeis em mesa próxima.

Quando uma mulher mais velha parte a anca, a lista de recuperação costuma limitar-se à consolidação do osso, ao controlo da dor e à fisioterapia.

Mas há outro elemento essencial que quase nunca entra no plano de cuidados: a redistribuição de gordura. Dados recentes indicam que devia ser considerada.

Ao acompanharem mulheres idosas ao longo da recuperação de uma fractura da anca, médicos observaram que a gordura abdominal perigosa aumenta de forma consistente durante esses meses. E uma hormona que muitos associam sobretudo aos homens parece travar esse processo.

Danos causados pela gordura

Nem toda a gordura corporal se comporta da mesma maneira. A camada macia logo por baixo da pele chama-se gordura subcutânea. Funciona como almofada, ajuda a isolar e armazena energia, sem, em geral, causar grandes problemas.

Já a gordura visceral é diferente: acumula-se no interior do abdómen e envolve o fígado e outros órgãos. Uma vasta linha de investigação relaciona-a com diabetes, doença cardíaca e inflamação crónica.

Também cresce a evidência de que, mesmo quando o peso quase não muda, a gordura dentro do abdómen pode continuar a aumentar - e de forma arriscada.

As hormonas conduzem a mudança

A gordura não “assenta” ao acaso. As hormonas sexuais, que variam ao longo das décadas, orientam o armazenamento para diferentes zonas do corpo.

A testosterona, em particular, influencia onde o organismo guarda as suas reservas, sobretudo com o avançar da idade.

O professor Jacob Earp, da University of Connecticut (UConn), decidiu testar esta hipótese em mulheres a recuperar de uma fractura da anca.

Ao explicar a lógica do ensaio, Earp foi directo quanto ao ponto de partida.

“Há uma ligação directa entre as hormonas sexuais e a distribuição de gordura em todo o corpo”, disse Earp.

As fracturas da anca são devastadoras

As fracturas da anca têm um impacto profundo na vida das pessoas mais velhas. Acontecem quase três vezes mais em mulheres do que em homens e, quando a lesão é grave, muitas vezes marca o início de um declínio prolongado.

Um estudo sobre quedas em adultos mais velhos mostra com que frequência uma fractura se traduz em internamentos mais longos, lesões repetidas e perda permanente de autonomia.

A própria recuperação cria novos obstáculos. A mobilidade tende a ficar limitada e a reabilitação torna-se mais difícil. A composição corporal começa a degradar-se: a gordura visceral sobe lentamente e o tecido magro vai diminuindo.

Um olhar para o ensaio clínico

A equipa de Earp recrutou 66 mulheres com mais de 65 anos, todas nos primeiros meses após uma fractura da anca. Antes do início do ensaio, cada participante realizou uma avaliação por DXA.

Este exame recorre a raios X de baixa dose para medir separadamente gordura, osso e tecido magro, permitindo ver onde o peso se distribui - e não apenas quanto pesa.

Todas as participantes seguiram o mesmo programa de exercício. A diferença esteve apenas no gel utilizado.

Metade aplicou diariamente um gel de testosterona; a outra metade não recebeu qualquer complemento. Seis meses depois, ambas as equipas voltaram para uma nova avaliação.

Revelações das avaliações à anca

O resultado principal, à primeira vista, foi discreto. A percentagem total de gordura corporal manteve-se aproximadamente igual nos dois grupos. Se alguém olhasse apenas para a balança, seria difícil distinguir as participantes.

No entanto, ao analisar o interior do abdómen, a história mudou. As mulheres que usaram o gel de testosterona apresentaram menos gordura visceral do que tinham no início.

Em contrapartida, o grupo que fez apenas exercício ganhou gordura visceral. Este é o padrão mais comum após uma fractura da anca - e um fenómeno que os médicos há muito tentam contrariar.

A contrariar uma tendência persistente

Até este ensaio, ninguém tinha demonstrado que um gel de testosterona aplicado na pele conseguiria reduzir a gordura visceral em mulheres idosas durante a recuperação de uma fractura da anca.

A equipa de Earp foi a primeira a inverter a trajectória. O gel não se limitou a abrandar o aumento: fez a gordura visceral descer, enquanto as mulheres continuavam a avançar na reabilitação.

“Se tem uma lesão e, de um modo geral, à medida que envelhecemos, esperamos um aumento de gordura visceral”, disse Earp. “Isto contrariou mesmo essa tendência e causou uma redução selectiva de gordura nesse compartimento visceral.”

O aspecto mais marcante é precisamente essa selectividade. As estratégias habituais de perda de peso removem o que for mais fácil, incluindo massa muscular - algo que os mais velhos não podem dar-se ao luxo de perder.

Aqui aconteceu o inverso: diminuiu a gordura mais perigosa sem afectar o tecido magro.

Limitações da amostra

O ensaio incluiu apenas 66 mulheres - todas com mais de 65 anos e a recuperar de uma fractura recente da anca. Este recorte reduz a possibilidade de generalizar os resultados.

Não foram estudadas mulheres mais novas, pessoas sem lesão recente nem participantes com perfis de saúde diferentes. Estudos futuros terão de confirmar se o efeito se mantém em amostras maiores e mais diversificadas.

Mudanças futuras no tratamento

Este ensaio aponta para uma novidade: durante a recuperação de uma fractura da anca, um gel hormonal aplicado na pele pode reduzir a gordura visceral em mulheres idosas, mesmo quando o peso total se mantém estável.

Para os médicos, as opções têm sido difíceis há muito tempo.

Se nada for feito em relação à composição corporal, a gordura perigosa tende a acumular-se. Se, pelo contrário, se promover a perda de peso, existe o risco de também se perder músculo e osso.

Um ajuste hormonal direccionado que diminua a gordura perigosa sem reduzir tecido magro surge como uma terceira via.

“São lesões devastadoras de que a maioria das mulheres nunca recupera”, disse Earp.

“Neste caso, qualquer tipo de intervenção que possa ter um efeito benéfico na saúde pode potencialmente traduzir-se numa enorme melhoria da qualidade de vida para a pessoa.”

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário