Um novo estudo concluiu que um som demasiado grave para a maioria das pessoas o ouvir pode, em poucos minutos, deixar os ouvintes mais irritáveis, menos envolvidos e biologicamente mais stressados.
Esta descoberta dá uma explicação física àquela sensação desconfortável típica de certas caves, sugerindo que alguns espaços podem perturbar o corpo antes mesmo de a mente conseguir identificar a razão.
Um sinal sonoro escondido
Numa sala controlada da MacEwan University, uma universidade pública em Edmonton, Alberta, um zumbido grave camuflado por baixo de música alterou a forma como as pessoas se sentiam.
Ao registar essas respostas, Rodney M. Schmaltz, Ph.D., professor de Psicologia na MacEwan University, ajudou a demonstrar que o infrassom - mesmo quando passa despercebido - pode influenciar reacções emocionais. Estas ondas sonoras de baixa frequência situam-se abaixo do limite habitual de audição humana.
Quando expostas à vibração oculta, as pessoas relataram maior irritabilidade, menor interesse e uma impressão mais triste da mesma música, em comparação com participantes que ouviram apenas a música.
O resultado não prova que todos os espaços “estranhos” estejam a vibrar, mas coloca o ruído do edifício como um suspeito plausível antes de se atribuir o desconforto a algo sobrenatural.
Porque é que edifícios antigos zumbem
Edifícios antigos podem continuar a gerar sons graves, mesmo quando parecem totalmente silenciosos.
Ventoinhas de ventilação, motores de elevadores, bombas e tubagens conseguem enviar ondas lentas de pressão através de pavimentos e paredes. Estas fontes artificiais juntam-se a fontes naturais, como tempestades, vulcões e meteoros.
Como as ondas de baixa frequência percorrem grandes distâncias e contornam obstáculos com facilidade, uma cave pode acumular vibração que não se parece com um ruído comum.
Em volumes muito elevados, a fronteira próxima dos 20 hertz - 20 vibrações por segundo - torna-se menos nítida, porque tons muito graves podem começar a tornar-se audíveis.
Stress sem consciência
O corpo consegue responder a factores de stress ocultos, mesmo quando a atenção nunca os detecta.
Do ponto de vista fisiológico, o cortisol - uma hormona do stress - ajuda a disponibilizar energia e a ajustar a actividade imunitária quando o cérebro assinala pressão ou esforço.
Picos breves podem ser úteis para manter alguém alerta, mas aumentos repetidos podem prejudicar o sono, o humor, a pressão arterial e o metabolismo.
“Este estudo sugere que o corpo pode responder ao infrassom mesmo quando não o conseguimos ouvir de forma consciente”, afirmou Schmaltz.
Medição das respostas ao stress
Participaram 36 estudantes adultos, com nove pessoas atribuídas a cada uma de quatro condições de audição.
Metade ouviu música relaxante ou som ambiente ao estilo de terror com infrassom escondido perto dos 18 hertz; os restantes ouviram a mesma música sem esse componente.
Altifalantes de graves ocultos geraram o tom entre 75 e 78 decibéis, sem provocar vibrações evidentes ou ruídos de objectos a tremer.
A equipa recolheu amostras de saliva antes e 20 minutos depois da audição para obter um indicador biológico, enquanto questionários registaram o estado de espírito imediatamente após a exposição.
O infrassom alterou o estado de espírito
As avaliações emocionais evoluíram numa direcção consistente depois de o tom grave ser introduzido na sala.
Os participantes expostos ao infrassom referiram mais irritabilidade durante a música e menos interesse no período seguinte.
Além disso, classificaram a mesma música como mais triste, apesar de os excertos audíveis terem sido concebidos para soar relaxantes ou inquietantes.
De forma decisiva, as tentativas de adivinhar se o infrassom estava presente não explicaram o efeito, o que indica que a expectativa não foi o motor do resultado.
Resposta da hormona do stress
A componente biológica confirmou os relatos de humor. O cortisol na saliva aumentou na condição com infrassom, e uma amostra de saliva de má qualidade reduziu para 35 o número de medições hormonais utilizáveis.
A associação com o infrassom manteve-se mesmo depois de os investigadores terem controlado estatisticamente a irritação, o medo e o mal-estar durante a exposição.
“Níveis mais elevados de cortisol ajudam o corpo a responder a factores de stress imediatos, induzindo um estado de vigilância”, disse Trevor J. Hamilton, Ph.D., autor correspondente da MacEwan University.
Não é exactamente ansiedade
Apesar da ligação óbvia ao imaginário de edifícios assombrados, o medo não foi o traço dominante do padrão observado. A irritabilidade e o desinteresse sobressaíram mais do que a ansiedade, o que impede que os resultados sejam apresentados como uma afirmação generalizada sobre pânico.
Essa diferença sugere que um elemento irritante pode tornar uma sala desagradável sem levar necessariamente a pessoa a sentir-se explicitamente assustada.
Em termos práticos, o estudo aponta menos para histórias de fantasmas e mais para condições de edifícios que passam despercebidas e que podem afectar o humor.
Questões que ainda ficam em aberto
Estudos pequenos podem revelar um sinal sem fechar o caso por completo.
Com um grupo tão reduzido - e composto maioritariamente por mulheres jovens -, será necessário repetir o trabalho com amostras maiores, diferentes idades, condições de saúde, tipos de edifícios e períodos de exposição mais longos.
Os investigadores também testaram apenas um tom puro, enquanto espaços reais costumam combinar várias baixas frequências com vibração, correntes de ar e ruído audível.
Engenharia de espaços mais silenciosos
O projecto de edifícios já trata o ruído como um factor de conforto, mas a vibração de baixa frequência costuma escapar à atenção do dia-a-dia.
Medições mais rigorosas podem ajudar engenheiros a localizar pontos problemáticos perto de grandes ventoinhas de ventilação, motores pesados, salas de caldeiras e longos percursos de tubagens.
Evidência mais clara também ajudaria reguladores a decidir se os efeitos laboratoriais de curto prazo se traduzem em limites de exposição aplicáveis no mundo real.
“A primeira prioridade seria testar um leque mais amplo de frequências e durações de exposição”, acrescentou Schmaltz.
O que isto muda
A convergência entre avaliações de humor, amostras de saliva e a incapacidade de detecção consciente dá agora uma explicação física ao desconforto típico de edifícios antigos, em vez de o atribuir apenas à psicologia.
Os próximos passos úteis passam por testar salas do mundo real, exposições mais longas e combinações de frequências, mantendo o aviso principal com modéstia: uma sensação estranha pode ter uma origem física.
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