A síndrome de fadiga crónica, ou encefalomielite miálgica (ME/CFS), é uma doença incapacitante que durante muito tempo foi desvalorizada e, por décadas, frequentemente atribuída a causas psicossomáticas por vários especialistas.
Ainda hoje, há médicos que sustentam que a patologia existe apenas “na cabeça” do doente. No entanto, a maior análise genética do género realizada até agora aponta para uma origem biológica concreta.
O projecto DecodeME e a maior análise genética do ME/CFS
Um projecto de investigação do Reino Unido, denominado DecodeME, analisou associações a nível genómico e identificou oito possíveis sinais ligados ao ME/CFS.
Os resultados foram disponibilizados em pré-publicação e, até ao momento, ainda não foram publicados nem avaliados por revisão por pares. Mesmo assim, os dados sugerem que a componente genética de cada pessoa contribui, pelo menos em parte, para a probabilidade de desenvolver ME/CFS.
O neuropsiquiatra Alan Carson, da University of Edinburgh, que não participou no trabalho, afirma tratar-se de “by someway the largest study ever conducted on genetics of CFS/ME.”
A análise do DecodeME reuniu mais de 16,000 doentes, maioritariamente mulheres e de ascendência europeia. Os critérios de inclusão foram rigorosos, para garantir que entravam apenas casos considerados inequívocos.
Para participar, era necessário ter um diagnóstico oficial de ME/CFS e apresentar um sintoma-chave chamado mal-estar pós-esforço (post-exertional malaise): uma fadiga desproporcionada após exercício ou outras actividades que consomem energia, incluindo tarefas como concentrar-se ou socializar.
O que indicam os oito sinais genéticos
Os investigadores observaram mais de uma dúzia de sinais genéticos associados ao ME/CFS; contudo, só oito foram reproduzidos num segundo conjunto de dados com mais de 13,000 casos.
Num terceiro conjunto de dados com mais de 14,000 casos, os resultados não foram confirmados. Uma explicação possível é a existência de diferenças na forma como o ME/CFS foi definido e diagnosticado entre os conjuntos de dados.
Segundo o líder do DecodeME, o bioinformático Chris Ponting, da University of Edinburgh, uma das oito variantes genéticas “nicely overlays” um sinal anteriormente ligado à dor crónica - um sintoma frequente no ME/CFS.
Além disso, três dos oito sinais são conhecidos por actuar como primeiros respondedores a infecções virais ou bacterianas. Isto pode ajudar a compreender por que motivo tantos doentes relatam uma infecção antes do aparecimento dos primeiros sintomas, bem como a razão pela qual os números aumentaram desde a pandemia.
Embora estas oito associações genómicas não sejam exclusivas de quem tem ME/CFS, os resultados indicam que surgem com maior probabilidade em pessoas com a doença.
Muitos destes sinais genéticos apresentaram expressão em tecido cerebral, incluindo os associados à dor e ao sistema imunitário.
Os autores defendem que “Drugs targeting these genes' proteins might help protect against the consequences of microbial infection and therefore could reduce the risk of acquiring ME/CFS,” sugerindo uma via potencial para reduzir o risco de desenvolvimento da doença após infecções.
Limitações, impacto e próximos passos
A equipa do DecodeME, composta por mais de 50 investigadores, conclui: “DecodeME's results, grounded in the principles of statistical genetics, now place ME/CFS research on a firm biological foundation,” acrescentando que isto “should help to reduce the stigma of the illness,”.
Ainda assim, os sinais identificados são modestos e, por agora, o seu significado biológico exacto permanece incerto. Apesar das limitações, a geneticista Alena Pance, da University of Hertfordshire, também não envolvida no estudo, considera que o trabalho representa um “great advance towards understanding the illness better.”
Carson concorda quanto à relevância do avanço, mas sublinha que o caminho será longo. Recorda que, em perturbações como a depressão, a identificação de alguns genes associados ainda não se traduziu, por si só, num entendimento decisivo da doença nem em melhorias imediatas nos tratamentos.
Mesmo assim, os investigadores destacam progressos importantes, com contributos fundamentais dos próprios doentes. Ponting e a sua equipa defendem que estes resultados ajudam a explicar a componente hereditária do ME/CFS, aumentam as probabilidades de se encontrarem medicamentos eficazes e aproximam a doença, em termos de enquadramento científico, de outras condições genéticas comuns.
A colaboradora do estudo Sonya Chowdhury, directora-executiva da instituição de saúde britânica Action for ME, afirma: “We've gone from knowing almost nothing about the causes of ME to having specific genetic information to delve much deeper into,” e acrescenta: “For decades people with ME have asked to be heard, and now science is catching up.”
A investigação está disponível em pré-publicação no link indicado pelos autores.
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