As injeções para perda de peso passaram depressa das clínicas especializadas para os feeds das redes sociais e para as farmácias de rua. Conhecidos como medicamentos GLP-1, estes fármacos foram inicialmente desenvolvidos para apoiar pessoas com diabetes tipo 2, mas hoje são amplamente utilizados para ajudar na perda de peso.
O que são os medicamentos GLP-1 e como influenciam o apetite
Estes medicamentos imitam uma hormona chamada péptido semelhante ao glucagon-1, que participa na regulação do apetite e da glicemia. Ao atrasarem a digestão e aumentarem a sensação de saciedade, é frequente levarem as pessoas a comer menos e, assim, a perder peso.
Os dados disponíveis indicam que podem contribuir para a perda de peso, pelo menos a curto prazo. No entanto, à medida que a sua utilização cresceu, também aumentaram as dúvidas sobre possíveis efeitos não intencionais na nutrição e na saúde global.
Risco de défices nutricionais com medicamentos GLP-1
Uma revisão recente da evidência sugere que algumas pessoas que tomam medicamentos GLP-1 podem não estar a obter quantidades suficientes de nutrientes essenciais. Entre eles incluem-se as vitaminas A, C, D, E e K, a fibra alimentar e minerais como ferro, cálcio, magnésio, zinco e cobre.
Fala-se em défices nutricionais quando o organismo não recebe o suficiente de um determinado nutriente para funcionar de forma adequada. As estimativas sobre a frequência destes défices em pessoas que usam medicamentos GLP-1 variam muito.
Alguns trabalhos apontam que mais de 20% das pessoas podem estar em risco no primeiro ano após iniciarem medicamentos GLP-1, enquanto outros estudos sugerem que o efeito pode ser bem menor, atingindo menos de 1% dos utilizadores.
Também importa sublinhar que grande parte da investigação que associa medicamentos GLP-1 a défices de nutrientes é observacional. Este tipo de estudos procura padrões e associações nos dados, mas não consegue demonstrar causa e efeito.
Ou seja, conseguem indicar que dois fenómenos acontecem em simultâneo, mas não confirmam que um provoque o outro. Por isso, ainda não é possível afirmar com certeza que os medicamentos GLP-1 causam diretamente défices nutricionais.
Ainda assim, a preocupação faz sentido. Estes medicamentos tendem a reduzir a ingestão alimentar. Comer menos pode significar também ingerir menos nutrientes essenciais, aumentando, com o tempo, o risco de carências.
Então, será possível lidar com estes potenciais défices sem recorrer a suplementos especializados e caros? Muitas vezes, sim. Pequenos ajustes na alimentação podem ser suficientes.
Uma dieta variada, assente em alimentos integrais densos em nutrientes - incluindo fruta e hortícolas, cereais integrais, frutos oleaginosos e sementes, lacticínios ou alternativas fortificadas, e proteínas magras ou de origem vegetal - pode ajudar a manter uma ingestão adequada.
Quando é mesmo necessário suplementar, produtos comuns de vitaminas e minerais disponíveis nas farmácias e parafarmácias costumam chegar. Raramente existe necessidade de pagar preços premium por produtos comercializados especificamente para utilizadores de GLP-1. A evidência usada na promoção destes produtos é, muitas vezes, fraca.
Ciência selectiva
Com o aumento da preocupação em torno de possíveis carências, surgiu também um novo mercado. Algumas empresas de suplementos estão a lançar produtos de “apoio GLP-1”, alegando compensar efeitos secundários como perda de massa muscular e défices de vitaminas, fornecendo os nutrientes “certos” para quem usa estes medicamentos.
Mas será que quem toma medicamentos GLP-1 precisa mesmo destes suplementos?
O uso de suplementos de vitaminas e minerais é, há muito, tema de debate na ciência da nutrição. Em pessoas geralmente saudáveis e com uma alimentação equilibrada, a evidência de benefício é limitada. Já para quem tem uma deficiência específica, a suplementação pode ser útil.
Por exemplo, muitas pessoas no Reino Unido estão em risco de deficiência de vitamina D durante os meses de inverno, devido à menor exposição solar, de que o corpo precisa para produzir vitamina D. Ainda assim, se alguém já obtém o suficiente de um nutriente através da alimentação, tomar doses extra sob a forma de suplemento tende a trazer pouco ou nenhum benefício adicional.
Apesar de existirem dados a apoiar certos suplementos em situações concretas ou para grupos específicos, muitos suplementos de “apoio GLP-1” incluem ingredientes que não estão claramente ligados às necessidades de quem toma estes fármacos.
É comum estes produtos serem descritos como “apoiados pela ciência” ou “baseados em evidência”, mas a investigação por trás destas alegações é, frequentemente, selectiva. E, em muitos casos, nem sequer foi feita em pessoas que usam medicamentos GLP-1.
Um exemplo típico é a presença de biotina em muitos destes suplementos, uma vitamina muitas vezes promovida como benéfica para o cabelo e para a pele. No entanto, a evidência que sustenta essa alegação é fraca.
Além disso, não existe investigação robusta que mostre que a biotina ofereça benefícios específicos para pessoas a tomar medicamentos GLP-1. A maioria das pessoas já obtém biotina suficiente através da dieta do dia a dia, pelo que não há evidência clara de que acrescentar mais via suplementos seja útil.
O apoio nutricional e de estilo de vida para quem utiliza medicamentos GLP-1 deve ser ajustado às necessidades e objetivos de cada pessoa - uma abordagem frequentemente designada por cuidados personalizados. Parte do princípio de que as pessoas diferem na sua alimentação, no estado de saúde e no risco de carência.
As recomendações indicam que este apoio deve ser individualizado para responder a necessidades específicas, idealmente com aconselhamento de um profissional de saúde qualificado, como um dietista ou nutricionista com credenciação. Isto é particularmente relevante para quem tem maior risco de défices de nutrientes.
Quando se identificam carências - ou quando estas são prováveis - a estratégia pode passar por pequenas mudanças alimentares ou pelo recurso a suplementos padrão. Ainda assim, isso não justifica o uso rotineiro de suplementos caros rotulados como “apoio GLP-1”.
É pouco provável que estes produtos tragam vantagens para lá do que já é oferecido por suplementos básicos e acessíveis. Um preço mais elevado não é garantia de maior qualidade nem de maior eficácia.
A mensagem principal é simples: os suplementos são mais úteis quando existe uma deficiência confirmada ou quando não é possível satisfazer as necessidades nutricionais apenas com a alimentação. Tomá-los sem uma necessidade clara dificilmente trará benefícios e pode ser apenas dinheiro desperdiçado.
Jordan Beaumont, Professor Auxiliar (Senior Lecturer) em Alimentação e Nutrição, Sheffield Hallam University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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