Mais de 1,300 habitantes do estado de Victoria aderiram a uma ação coletiva contra a Johnson & Johnson, alegando que os seus produtos de pó de talco lhes causaram cancro do ovário, mesotelioma (um cancro que afeta os pulmões) e outros cancros que atingem os órgãos reprodutores.
O caso surge na sequência de processos no Reino Unido e nos Estados Unidos, incluindo um processo mediático na Califórnia. Em dezembro de 2025, a Johnson & Johnson foi condenada a pagar a duas mulheres US$40 milhões, depois de um júri ter concluído que o seu pó de bebé era perigoso e que a empresa não avisou os consumidores.
O talco é um mineral natural extraído em várias regiões do mundo. As pessoas podem contactar com ele durante a extração e o processamento, em utilizações industriais e, mais frequentemente, através do seu uso em cosméticos e pós corporais.
Muita gente aplica talco na zona genital para absorver a humidade, diminuir a fricção, disfarçar odores ou atenuar irritações cutâneas e assaduras. Nos pós faciais e noutros cosméticos, o talco aumenta a opacidade e deixa a pele com uma sensação mais lisa e suave.
Então, de que forma é que isto se relaciona com o cancro? E o que dizem as provas científicas?
Contaminação com amianto
Desde a década de 1970 que se levantam dúvidas sobre a possibilidade de o talco estar contaminado com amianto. O amianto é um agente cancerígeno que pode afetar os pulmões quando é inalado.
O talco e o amianto são minerais que, muitas vezes, aparecem próximos na crosta terrestre, o que cria a possibilidade de o talco ficar contaminado com amianto durante a extração.
Desde os anos 1970, os fabricantes têm procurado produzir pó de talco “puro”, sem amianto. Ainda assim, não é claro com que regularidade as amostras são testadas nem qual terá sido a extensão da contaminação ao longo dos últimos 50 anos.
Em 2023, a Johnson & Johnson deixou de vender talco nos seus produtos em todo o mundo, incluindo na Austrália, substituindo-o por uma base de farinha de milho. Outros fabricantes continuam a comercializar pó de talco, e este mantém-se em uso em cosméticos e também em aplicações industriais.
O que diz a ciência sobre a ligação ao cancro?
Há dois tipos de cancro para os quais existe uma possível associação com o uso de talco:
- cancro do pulmão, devido à possibilidade de inalação de partículas de talco, algo que pode acontecer em determinados tipos de trabalho
- cancro do ovário, relacionado com a utilização regular de pó de talco na zona genital.
Alguns estudos em humanos identificaram uma ligação entre produtos com talco e taxas mais elevadas de cancro do ovário. Outros trabalhos, porém, não encontraram qualquer associação.
Nos estudos que analisaram a aplicação de talco na zona genital, não foi encontrada evidência que sugira uma ligação entre talco e cancro do útero ou do colo do útero.
Ainda assim, investigar a relação entre pó de talco e cancro tem obstáculos importantes. Pode ser difícil, muitos anos depois, recordar pormenores sobre o uso do talco (marca, quantidade, entre outros). Além disso, algumas pessoas que desenvolveram cancro terão morrido antes de serem identificadas e incluídas nos estudos, ficando fora da análise.
No entanto, quando os investigadores avaliaram a frequência de utilização do pó de talco e compararam utilizadores frequentes com pessoas que não o usavam, observaram um aumento do risco de cancro do ovário entre quem o utilizava com maior regularidade.
Então, o que é que isto significa?
Quando vários estudos apresentam resultados diferentes, é possível reuni-los e sintetizá-los para responder à pergunta de investigação. Perante isso, o que indica, no conjunto, a evidência atualmente disponível sobre a relação entre o uso de talco e o cancro do ovário?
Esse estudo de síntese conclui que parece existir um risco fraco para alguns tipos de cancro do ovário - isto é, uma associação a um pequeno aumento do risco -, mas as razões para tal continuam pouco claras.
A evidência também aponta que o talco não aumenta o risco de outros cancros ginecológicos, como os do útero e do colo do útero.
Já o talco contaminado com amianto está claramente associado a um risco mais elevado de cancro do pulmão. No entanto, a utilização cosmética de talco não parece aumentar o risco de cancro do pulmão, porque os utilizadores não o respiram.
Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou as suas recomendações, indicando que o talco é "probably carcinogenic", ou seja, que provavelmente causa cancro em humanos. Trata-se do segundo nível mais elevado de risco de cancro, onde também se incluem o herbicida glifosato (Roundup) e a carne vermelha.
Se usa pó de talco e está preocupado com um possível aumento do risco de cancro, recomenda-se que deixe de o usar ou que limite a quantidade aplicada.
Como em todas as decisões da vida, importa ponderar o equilíbrio entre danos e benefícios potenciais - sobretudo se já utiliza talco há muito tempo e pretende reduzir o risco de vir a ter cancro.
Tam Ha, Professor Associado de Epidemiologia do Cancro, Universidade de Wollongong
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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