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Como as luvas pretas da Piranha Studios viraram fenómeno mundial

Pessoa a calçar luvas pretas junto a caixa com outras luvas, bola de futebol e câmara numa mesa de madeira.

As luvas pretas tornaram-se uma imagem de marca da Piranha. Hoje contam-se entre os artigos mais identificáveis no universo da tatuagem e acabaram por contagiar outras áreas profissionais, contribuindo para que a luva preta se tornasse comum muito para lá dos estúdios. A origem está numa preocupação estética e na atenção ao detalhe de Pedro Dias, fundador da Piranha Studios. Depois de muitos “nãos”, conseguiu finalmente convencer um empresário norte-americano, numa convenção de tatuagens na Europa, a avançar com a ideia - com uma cláusula: ele trataria da comercialização nos Estados Unidos, enquanto a Piranha conservaria, durante nove anos, a patente e os direitos na Europa. O produto feito em Viseu rapidamente passou a ser um fenómeno.

“Eu brinco muitas vezes que as luvas pretas da Piranha são para o mundo da tatuagem como a BIC para as canetas”, diz Pedro Dias ao Expresso. “Não evoluíram praticamente nada e continuam a funcionar incrivelmente bem”, nota.

Luvas pretas da Piranha Studios: da obsessão estética ao fenómeno global

A trajetória da Piranha arranca oficialmente em 2003, numa fase em que o mercado da tatuagem em Portugal era pequeno. Havia lojas a operar quase na sombra e comprar material específico era, muitas vezes, uma verdadeira odisseia. Atualmente, a Piranha Studios é um dos maiores estúdios de tatuagens do país - mas o estúdio é apenas uma parte do negócio. A operação está organizada em três vertentes: o estúdio de tatuagens, a Piranha Supplies (focada em distribuição e logística) e a Piranha Lab (orientada para desenvolvimento de produto e inovação).

Três áreas de negócio, exportação e obstáculos no caminho

Hoje, a empresa comercializa o que produz em mais de 40 países, trabalha com cerca de 60 distribuidores internacionais e envia para fora de Portugal dois terços da produção. Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido são os destinos principais, embora a marca tenha conquistado terreno em mercados mais longínquos, como Japão, Vietname, Austrália, Canadá e Estados Unidos.

“O Japão, ao fim de pouco mais de um ano, já estava no top 3 dos nossos clientes”, conta Pedro Dias. “Mas para entrares no Japão tens mesmo de ter um produto ao nível dos melhores do mundo”, acrescenta o fundador da Piranha Studios.

O catálogo ultrapassa as 20 mil referências, abrangendo luvas, agulhas, equipamentos de proteção individual, mobiliário técnico e consumíveis para estúdios de tatuagem. No total, a empresa emprega 33 pessoas e terminou o último ano com um volume de negócios de cerca de €2,5 milhões, valor que tem permanecido estável nos últimos anos. Ainda assim, Pedro Dias considera que a capacidade do projeto é significativamente superior: “Nunca poderemos estar abaixo dos seis ou sete milhões” nos próximos anos, admite. A guerra na Ucrânia praticamente arrasou um mercado que a empresa levou mais de uma década a consolidar na Europa de Leste. Já as tarifas impostas pelos EUA fizeram travar entendimentos comerciais relevantes, com prejuízos de “mais de meio milhão de euros”, reconhece.

Pedro Dias diz que já foi abordado por fundos norte-americanos interessados em comprar a empresa, mas recusou. Não exclui totalmente esse cenário no futuro, embora sublinhe que, por agora, não faz parte da estratégia. Enquadra essa pressão num contexto de grande fragmentação do sector e de consolidação em curso, com vários fundos de capital privado à procura de empresas nesta área.

A tendência ganhou força nos EUA, com a Factory Capital, que em 2025 anunciou a criação de uma plataforma de tatuagem e piercings corporais, após comprar vários estúdios em cidades como Nova Iorque, Miami ou Las Vegas. Do lado europeu, também se registaram operações relevantes. A britânica Barber DTS, uma das maiores plataformas europeias de consumíveis para tatuagem, foi adquirida pelo fundo britânico RJD Partners e, mais tarde, vendida à norte-americana Nexus Brands.

Existe ainda um movimento mais amplo: fundos especializados em beleza, bem-estar e nichos profissionais procuram marcas com comunidades fortes, distribuição global e produtos próprios. É o caso da PAI Partners, da KKR ou da Aurea. Também a BIC entrou no universo da tatuagem ao comprar a Inkbox, marca canadiana de tatuagens temporárias e semi-permanentes.

Os quilómetros da Kangoo

Pedro Dias era licenciado em Motricidade Humana, com especialização em Educação Física e Desporto, pelo Instituto Piaget de Viseu. Jogava futebol a nível semiprofissional e já tinha experimentado outros pequenos negócios ligados ao surf, ao skateboard e aos desportos radicais. No entanto, foi numa ida a Madrid, para uma feira de piercings e tatuagem, que percebeu a oportunidade. “Não havia acesso ao material em lado nenhum. Eram seis ou sete lojas em Portugal. Quase toda a gente fazia tatuagens como passatempo e acumulava outro emprego”, recorda.

A partir desse momento, começou a abrir caminho no mercado. Comprava material em Espanha, enchia uma Renault Kangoo com agulhas, luvas e consumíveis, e fazia-se à estrada para encontrar tatuadores.

“Hoje vou para Coimbra, amanhã Braga, depois Aveiro ou Faro”, conta. “Muitas vezes chegava às cidades e perguntava: ‘onde é que eu posso fazer uma tatuagem?’ E respondiam-me: ‘há um tipo num centro comercial, mas ele só trabalha à noite’.”

Durante mais de uma década, a carrinha foi quase um prolongamento da empresa. Pedro Dias estima ter percorrido mais de um milhão de quilómetros pelo país à procura de clientes. Atualmente, a mesma carrinha está parada na sede da empresa, convertida num símbolo do percurso da Piranha - e também ela “tatuada” com o talento do artista português Bordalo II. “Todos os dias, quando entro aqui, olho para ela”, conta, acrescentando que “é importante não esquecer de onde viemos”.

O estúdio dos craques da bola

Apesar do peso crescente das restantes áreas, uma parte importante da notoriedade da Piranha continua associada ao estúdio de tatuagens em Viseu, que recebeu várias personalidades do desporto e da música em Portugal. Futebolistas como Ederson Moraes, Renato Sanches, Salvio, Otávio, Alex Telles, José Sá ou Anderson Talisca tatuaram-se na Piranha. Entre os músicos, passaram por lá nomes como Piruka, Dillaz, Dengaz ou Blaya.

Ainda assim, Pedro Dias afirma que sempre procurou gerir a visibilidade mediática das figuras públicas sem desvalorizar quem procura o estúdio no dia a dia. “No final do dia, interessa-me que todas as pessoas que passam pelo estúdio se sintam bem acolhidas”, explica. “Claro que uma figura pública projeta muito a marca, mas tatuamos pessoas incríveis todos os dias”, sublinha o fundador da Piranha.

Duas décadas depois de ter começado praticamente sozinho, continua a encarar a empresa como uma construção permanente. “Quando construímos tudo do zero, é difícil desligarmo-nos emocionalmente”, admite. “Mas ao mesmo tempo temos de manter a racionalidade para perceber qual é o próximo passo”, conclui Pedro Dias.

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