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Alimentos ultraprocessados ligados à gordura intramuscular nos músculos da coxa, segundo RMN

Pessoa em pé na cozinha escolhendo entre prato saudável e snacks, com músculos da coxa ilustrados.

Os padrões alimentares atuais mudaram de forma tão gradual que hoje parecem naturais, embora há poucas décadas fossem vistos como fora do comum. Snacks embalados, refeições congeladas e bebidas açucaradas entram facilmente no carrinho das compras.

Estas opções poupam tempo e são intensas no sabor, mas continua a haver dúvidas entre investigadores sobre o que acontece no organismo quando este tipo de escolhas passa a ser habitual.

Um estudo recente aprofunda o tema e, em vez de se focar apenas no peso, analisa de que forma a alimentação pode influenciar a saúde muscular.

Alimentos processados dominam a alimentação

Os alimentos ultraprocessados representam hoje uma fatia significativa da alimentação do dia a dia.

Para ganharem sabor e durarem mais tempo, estes produtos recorrem a açúcar, sal e gorduras adicionados, substituindo muitas vezes ingredientes frescos que oferecem valor nutricional real.

“Nas últimas décadas, em paralelo com o aumento das prevalências de obesidade e osteoartrose do joelho, o uso de ingredientes naturais na nossa alimentação diminuiu de forma constante e foi substituído por alimentos e bebidas industrialmente processados, com aromas artificiais, corantes e alterações químicas, que são classificados como alimentos ultraprocessados”, afirmou Zehra Akkaya, da Universidade de Ancara.

Esta transformação ocorreu ao mesmo tempo que subiam as taxas de obesidade, mas o peso corporal, por si só, não explica todo o quadro.

Por isso, os cientistas procuram perceber como a qualidade do que se come afeta o organismo em profundidade - sobretudo em tecidos como o músculo, essencial para a mobilidade e o equilíbrio.

Gordura oculta no músculo

Do exterior, o músculo pode parecer rijo e forte, mas a sua composição interna pode alterar-se de formas que não se veem a olho nu. Com o tempo, pode acumular-se gordura dentro do tecido muscular, com impacto no desempenho do músculo ao longo dos anos.

“A osteoartrose é um problema de saúde global cada vez mais prevalente e dispendioso”, disse Akkaya.

“Constitui um dos maiores custos de cuidados de saúde não relacionados com cancro nos Estados Unidos e em todo o mundo. Está fortemente associada à obesidade e a escolhas de estilo de vida pouco saudáveis.”

O trabalho centrou-se nos músculos da coxa, por serem decisivos no suporte do joelho.

Quando a qualidade destes músculos diminui, ações comuns como caminhar ou manter-se de pé podem tornar-se mais difíceis, e a sobrecarga nas articulações pode aumentar.

Alimentos ultraprocessados associados a gordura no músculo

Os investigadores analisaram dados de 615 adultos que ainda não apresentavam sinais claros de osteoartrose do joelho. Em seguida, cruzaram os hábitos alimentares com exames detalhados aos músculos da coxa.

Em média, cerca de 41 por cento da alimentação dos participantes vinha de alimentos ultraprocessados.

Os resultados revelaram um padrão nítido: quanto maior o consumo destes produtos, maior a quantidade de gordura dentro dos músculos da coxa - mesmo depois de se considerar a ingestão calórica, a atividade física e outros fatores de estilo de vida.

A RMN revela alterações invisíveis

“Para além de investigarmos a qualidade da nossa alimentação moderna em relação à composição muscular da coxa, neste estudo utilizámos RMN sem contraste amplamente disponível, tornando a nossa abordagem acessível e prática para uso clínico de rotina e para estudos futuros”, afirmou Akkaya.

“Estas RMN não exigem tecnologia avançada ou dispendiosa, o que significa que podem ser facilmente integradas nas práticas de diagnóstico padrão.”

Assim, pessoas com idade e peso semelhantes podiam, ainda assim, apresentar qualidade muscular muito diferente, dependendo do que consumiam regularmente.

A qualidade da alimentação pesa mais

Uma conclusão sobressai: a qualidade da alimentação é tão importante quanto o número de calorias. É possível manter um peso semelhante e, mesmo assim, ocorrerem alterações internas no corpo associadas às escolhas alimentares.

“Esta investigação sublinha o papel vital da nutrição na qualidade muscular no contexto da osteoartrose do joelho”, disse Akkaya.

“Abordar a obesidade é um objetivo primário e um tratamento de primeira linha para a osteoartrose do joelho, mas as conclusões desta investigação realçam que a qualidade alimentar merece maior atenção e que os regimes de perda de peso devem ter em conta a qualidade da alimentação para além da restrição calórica e do exercício.”

Má nutrição prejudica os músculos

Os alimentos ultraprocessados tendem a ter défice de nutrientes necessários para manter o músculo saudável.

Com o passar do tempo, este desequilíbrio pode dificultar a reparação e a manutenção do tecido muscular, favorecendo a acumulação de gordura onde ela não deveria estar.

Estas conclusões são relevantes para quem está em risco de problemas no joelho. Uma menor qualidade muscular pode limitar os movimentos, aumentar o desconforto e impor maior esforço às articulações.

“Nos últimos anos, vários investigadores demonstraram impactos prejudiciais dos alimentos ultraprocessados em diversos desfechos de saúde, mas os dados sobre a relação entre alimentos ultraprocessados e composição corporal no contexto da osteoartrose do joelho são limitados”, disse Akkaya.

“Este é o primeiro estudo a avaliar o impacto dos alimentos ultraprocessados na composição muscular da coxa utilizando RMN. Ao explorar como o consumo de alimentos ultraprocessados afeta a composição muscular, este estudo fornece perspetivas valiosas sobre influências alimentares na saúde muscular.”

Escolhas diárias e saúde muscular

O estudo não demonstra uma relação direta de causa e efeito, mas aponta para uma associação forte que merece acompanhamento.

Mostra também que alterações na qualidade muscular podem começar antes de surgirem sinais visíveis de doença.

À medida que os alimentos ultraprocessados continuam a moldar a forma como se come, o efeito poderá ser mais profundo do que se imagina.

As escolhas alimentares diárias fazem mais do que mexer no peso - vão, discretamente, influenciando a força e a estrutura dos músculos ao longo do tempo.

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