As flores tinham-se fechado sobre si mesmas, a relva ficara rígida, e as últimas vespas, preguiçosas, zumbiam desajeitadas à volta do contentor do compostor - como se não tivessem recebido o aviso de que o verão acabara. Uma criança de gorro de lã guinchou, a enxotá-las com uma luva, enquanto um adulto resmungava: “Abelhas, vespas… porque é que nos damos ao trabalho de as proteger se só fazem é picar?”
Num banco frio ali perto, um homem idoso observava os insectos a cambalear no ar e abanou a cabeça. “Daqui a pouco estão todas mortas”, disse, meio para si, meio para ninguém. A palavra mortas ficou estranhamente suspensa sobre os canteiros gelados, onde algo invisível já se escondia, à espera.
Porque é esse o volte-face estranho do inverno: o zumbido desaparece. A pergunta, porém, fica.
Vale mesmo a pena salvar abelhas e vespas quando o inverno as cala?
Quando o frio aperta, abelhas e vespas parecem sumir-se como um vício que se larga. O jardim que em Julho vibrava de vida, de um dia para o outro fica como um palco depois de descer o pano: sem zumbidos furiosos por cima dos gelados, sem asas em pânico a bater no vidro da janela.
Quase ninguém imagina algo de “heróico” a acontecer numa sebe a 3°C. O que nos vem à cabeça são ninhos vazios, insectos mortos, assunto resolvido. Por isso, a ideia de “salvar” abelhas e vespas no inverno pode soar quase absurda. Como é que se protege algo que mal se vê - e que, ainda por cima, pode estar escondido no isolamento do sótão?
E no entanto, nesses recantos silenciosos, há vida em modo pausa. Ou, para ser mais exacto, rainhas em pausa.
Eis a parte que raramente presenciamos. As abelhas-melíferas não migram: juntam-se num aglomerado vivo à volta da rainha, e fazem vibrar os músculos das asas para manterem lá dentro um confortável 20–30°C, enquanto o mundo lá fora congela. É como um radiador minúsculo e incansável, alimentado apenas por açúcar e instinto.
As vespas seguem um guião diferente. Quando chega o frio, quase toda a colónia morre. Quem fica são as rainhas fecundadas, abrigadas sob casca de árvore, em anexos, e por vezes até atrás de uma cortina esquecida na garagem. Passam meses sozinhas, a respirar devagar, a gastar pequenas reservas de gordura, à espera de uma primavera que muitas nunca chegarão a ver.
Raramente pensamos nestas sobreviventes invisíveis quando, em Agosto, praguejamos depois de uma picada. Ainda assim, todo o ano seguinte - zumbido, polinização, controlo de pragas e, sim, também incómodo - assenta nesses poucos corpos escondidos que resistem ao frio.
Se tirarmos o dramatismo dos piqueniques estragados e das picadas lembradas, os números pesam mais do que qualquer história. Cerca de 75% das principais culturas alimentares do mundo beneficiam da polinização por animais, e as abelhas silvestres fazem grande parte desse trabalho. Na Europa, aproximadamente quatro em cada cinco espécies de plantas silvestres com flor dependem, pelo menos em parte, de insectos como as abelhas.
As abelhas-melíferas têm melhor imprensa, mas são muitas vezes as abelhas silvestres que carregam o piano. Uma única abelha-masona-vermelha consegue polinizar tantas flores de macieira como dezenas de abelhas-melíferas, precisamente por ser “trapalhona” e pouco eficiente: deixa cair pólen por todo o lado. Essa “desarrumação” é o que enriquece os pomares.
Até as vespas - as vilãs clássicas do fim do verão - nos prestam serviços discretos. Estudos mostram que conseguem eliminar enormes quantidades de lagartas e moscas em culturas e jardins. São controlo biológico de pragas com asas e má reputação.
Então, por que razão o inverno é tão importante nesta história? Porque funciona como um filtro. Invernos mais duros, a perda de sebes, jardins da frente pavimentados a blocos, e quintais demasiado “arrumados” significam menos sítios seguros para as rainhas se esconderem. Menos rainhas agora traduz-se em menos polinizadores e menos predadores no próximo ano. Não é um futuro abstracto: são os seus tomates, a macieira do vizinho, as flores silvestres onde os miúdos apanham margaridas.
Quando alguém diz “Porque hei-de ligar, se só picam?”, na prática está a perguntar se o incómodo compensa o benefício. E a resposta está no prato e no pólen - não apenas na memória daquela ferroada dolorosa.
Como conviver com abelhas e vespas sem perder a cabeça (nem o piquenique)
Não precisa de virar apicultor amador para lhes dar uma hipótese. Um dos gestos de inverno mais simples é deixar uma parte do jardim um pouco mais “selvagem”. Mantenha caules ocos de pé, deixe um canto com folhas secas, resista à tentação de raspar e limpar cada fenda. Essa “bagunça” é imobiliário de luxo para futuras rainhas e para abelhas solitárias.
Se vive num apartamento, um pequeno hotel de insectos numa varanda pode, de facto, ajudar. Opte por um com furos de vários tamanhos e fixe-o num local abrigado, com sol de manhã. Não vai “salvar o planeta” sozinho, mas acrescenta uma peça pequena e útil a uma paisagem maior.
A primavera e o fim do outono também contam. Um prato raso com pedras e água pode tornar-se um ponto seguro de reabastecimento para abelhas cansadas. Acções minúsculas, impacto silencioso.
Depois há o factor medo. Num dia quente, uma única vespa ao almoço parece cem. O reflexo é enxotar, abanar os braços e, às vezes, entrar em pânico. Numa esplanada, um copo tranquilo pode virar um mini-drama. Quase toda a gente já viveu aquele momento em que a conversa pára de repente porque um insecto decide pousar na borda do copo.
A maior parte das picadas vem de mal-entendidos. As vespas à mesa costumam ser exploradoras famintas, atraídas por cheiros doces. Caixotes abertos, comida destapada, bebidas açucaradas - tudo isso funciona como um letreiro luminoso. Tapar os pratos, fechar bem os caixotes e afastar o lixo alguns metros já muda o ambiente.
Se uma abelha ou vespa pousar em si, ficar quieto alguns segundos costuma resultar melhor do que gesticular em pânico. O coração dispara, sim, mas para o insecto você é apenas uma paisagem em movimento. Se a paisagem muda rápido demais, isso pode parecer um ataque.
Também há situações em que manter distância é simplesmente o mais seguro. Ninhos junto a portas, recreios ou dentro de paredes podem tornar-se um problema real. Aí, os profissionais justificam o custo. Ligar a um técnico de controlo de pragas que saiba relocalizar ou gerir ninhos sem envenenamento indiscriminado é uma forma discreta de activismo ambiental.
“A maioria dos telefonemas que recebo começa com: ‘Odeio vespas’”, diz Mark, um técnico de controlo de pragas baseado no Reino Unido, que lida com ninhos há 20 anos. “Quando eu vou embora, as pessoas normalmente dizem: ‘Não fazia ideia de que elas comiam tantas pragas.’ Continuam sem as adorar. Mas odeiam-nas um pouco menos.”
É aqui que a coexistência começa: não em grandes discursos, mas num respeito a contragosto. Em optar por não pulverizar o pátio inteiro por causa de um ninho pequeno, lá em cima no beiral. Em deixar uma rainha de abelhão, na primavera, explorar o solo sem ir buscar um chinelo.
- Mantenha uma distância de 2–3 metros de ninhos visíveis e assinale a zona para as crianças não passarem a correr.
- Use caixotes bem fechados e com tampa para reduzir as “rusgas” de vespas a refeições ao ar livre no fim do verão.
- Plante espécies de floração precoce (salgueiro, açafrão, heléboro) para ajudar as rainhas depois do inverno.
- Evite insecticidas de largo espectro em pátios e relvados; raramente atingem apenas os insectos “chatos”.
Então, valem a pena quando no inverno parecem desaparecer?
Todos os invernos, o campo faz um truque de magia: num dia o ar está cheio de asas, no seguinte parece vazio. Interpretamos o silêncio como ausência. Na prática, é uma pausa entre actos. As rainhas estão escondidas, as larvas estão dormentes, e a energia está a ser guardada em vez de exibida.
Se avaliar abelhas e vespas apenas pelos três segundos em que a picada lhe acerta na pele, perde de vista as mil horas em que elas, sem alarde, sustentam o pequeno-almoço, o jardim, as amoras no passeio. A picada fica na memória. O trabalho passa despercebido. E o cérebro dá mais valor ao que consegue ver.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - ficar a olhar para sebes no inverno a imaginar insectos a dormir por trás da casca. A maioria de nós só quer atravessar os meses frios sem correntes de ar nem infiltrações. Mesmo assim, uma mudança mínima na forma como arruma, planta ou reage no verão pode inclinar a balança para colónias inteiras.
Não é preciso romantizá-las. Vespas num piquenique são irritantes. Picadas doem, alergias metem medo, e nenhuma virtude ecológica apaga isso. A pergunta não é: “Tenho de as adorar?” Está mais perto de: “Consigo aceitar algum desconforto em troca de comida no prato, menos pesticidas no jardim e uma primavera viva e cheia de zumbidos?”
Da próxima vez que a geada desbote a relva e o ar pareça vazio, imagine as rainhas escondidas nas traves do anexo, as abelhas-melíferas em cacho, como um coração a respirar dentro da colmeia, a abelha solitária selada num caule na sua varanda. Elas não se foram embora. Estão à espera de uma estação que vai depender, em parte, daquilo que escolheu fazer com o seu pequeno canto do mundo.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é importante para quem lê |
|---|---|---|
| Onde abelhas e vespas se escondem no inverno | As abelhas-melíferas agrupam-se dentro das colmeias, enquanto rainhas de vespas e de algumas abelhas se abrigam em anexos, sótãos, sob casca de árvore ou em cavidades no solo. Muitas abelhas solitárias passam o inverno como larvas dentro de caules ocos ou furos perfurados. | Ajuda a perceber por que razão jardins “vazios” não estão realmente vazios - e que cantos da casa ou do quintal podem, em silêncio, albergar os polinizadores do próximo ano. |
| Ajustes simples no jardim que fazem mesmo diferença | Deixar uma pequena zona com erva alta, manter caules ocos até ao fim da primavera e plantar floridas precoces como açafrão e salgueiro dá alimento e abrigo aos insectos invernantes quando acordam. | Facilita apoiar abelhas e vespas sem grande esforço nem despesa, sobretudo se não tiver um jardim grande ou muito tempo. |
| Reduzir picadas sem matar tudo | Tapar comida no exterior, afastar caixotes alguns metros e manter distância calma de ninhos evita a maioria dos encontros negativos - muitas vezes melhor do que sprays ou destruir ninhos por conta própria. | Permite proteger a família e aproveitar o verão lá fora, mantendo ao mesmo tempo os benefícios ecológicos destes insectos no seu ambiente próximo. |
Perguntas frequentes
- As abelhas e as vespas morrem mesmo no inverno? A maioria das vespas operárias e muitos machos de abelha morrem quando a temperatura desce, mas as colónias de abelhas-melíferas sobrevivem em grupo dentro da colmeia, e as rainhas fecundadas (tanto de abelhas como de vespas) passam o inverno em locais abrigados à espera da primavera.
- É assim tão mau destruir um ninho de vespas perto de minha casa? Se o ninho estiver num local por onde as pessoas passam constantemente ou onde as crianças brincam, a remoção pode justificar-se; ainda assim, chamar um profissional que o retire ou trate de forma dirigida é muito melhor do que encharcar toda a zona com insecticida.
- Como posso ajudar as abelhas se só tenho uma varanda? Plante uma mistura de ervas aromáticas com flor, como tomilho, alfazema e alecrim; coloque um pequeno hotel de insectos num sítio soalheiro e abrigado; e disponibilize um prato raso com água e seixos para que os insectos bebam sem se afogarem.
- Porque é que as vespas parecem mais agressivas no fim do verão? No final da estação, as colónias começam a desfazer-se e as fontes habituais de alimento mudam; por isso, as operárias procuram açúcar com mais intensidade perto dos humanos, o que as faz parecer mais atrevidas e persistentes.
- Todos os insectos que picam são úteis para a natureza? Muitas espécies que conseguem picar - incluindo a maioria das abelhas e vespas sociais - têm papéis na polinização ou no controlo de pragas; por isso, eliminá-las à volta das casas tende a remover benefícios, além de riscos ocasionais.
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