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Peptídeos injectáveis e anti-envelhecimento: o que saber na Austrália

Mulher a receber vacinação no braço por profissional de saúde num consultório clínico.

Os peptídeos injectáveis tornaram-se a mais recente tendência anti-envelhecimento a ganhar força no sector da beleza.

Nas redes sociais, estes compostos são apresentados como soluções para reparar a pele, estimular a produção de colagénio e alcançar uma suposta "rejuvenescência celular". Apesar de muitos peptídeos não estarem regulados na Austrália, é fácil comprá-los online através de vendedores no estrangeiro.

Isto levanta duas perguntas inevitáveis: o que é que estes produtos contêm, afinal, e até que ponto são seguros?

No início deste ano, três pessoas nos Estados Unidos foram multadas em milhares de dólares por terem participado no fornecimento de injecções de peptídeos num festival de anti-envelhecimento em Las Vegas, administradas a duas mulheres que, mais tarde, ficaram em estado crítico.

O conselho de farmácia não conseguiu apurar a razão exacta do agravamento clínico, nem determinar com precisão o que continham os séruns.

O trabalho que temos desenvolvido com colegas do Steroid QNECT - uma linha de apoio onde qualquer pessoa pode obter aconselhamento confidencial sobre fármacos de melhoria de desempenho/estética - indica que já há pessoas a injectar peptídeos na Austrália.

No entanto, a regulação não está a acompanhar esta procura. Ao mesmo tempo, persistem lacunas importantes na evidência científica: não só sobre se as promessas anti-envelhecimento fazem sentido à luz dos dados disponíveis, mas também sobre a segurança do uso em seres humanos.

O que são peptídeos injectáveis e porque estão na moda?

Os peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos - os “tijolos” das proteínas. Funcionam como mensageiros químicos no organismo e participam em vários processos, incluindo a reparação cutânea e a modulação (redução) da inflamação.

O corpo produz peptídeos de forma natural. Já os peptídeos sintéticos são fabricados para imitar essas funções ou potenciá-las.

Alguns peptídeos têm indicações médicas bem estabelecidas. Um exemplo são os medicamentos do tipo peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), como a semaglutida, aprovados para a diabetes e para a gestão do peso - comercializados como Ozempic e Wegovy. Estas aprovações assentam em evidência robusta de ensaios clínicos que demonstra eficácia.

Em paralelo, tem vindo a crescer o número de peptídeos promovidos com fins cosméticos e anti-envelhecimento, sem aprovação pela entidade reguladora australiana dos produtos terapêuticos.

Peptídeos como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 são vendidos na internet com alegações de que aumentam a produção de colagénio, aceleram a reparação da pele, reduzem rugas e até revertem aspectos do envelhecimento biológico.

Estes produtos são legais na Austrália?

Neste momento, os peptídeos injectáveis que são regulados enquadram-se em categorias de medicamentos sujeitos a receita médica. Na prática, isto significa que só deveriam ser obtidos através de um profissional de saúde qualificado e para uma indicação médica legítima.

As autoridades australianas já aplicaram coimas a empresas por promoverem ilegalmente injecções para perda de peso directamente junto dos consumidores.

A Therapeutic Goods Administration (TGA) inclui outros peptídeos sintéticos ainda não aprovados para consumo humano - como o BPC-157 - como substâncias da Tabela 4.

Para contornar estas restrições, muitos produtos vendidos online são apresentados como "substâncias químicas para investigação" e trazem o rótulo "não destinado a consumo humano".

Na prática, porém, estes artigos são embalados, dosados e divulgados de formas que deixam claro que se prevê a utilização em pessoas. Os vendedores online, regra geral, pedem pouca ou nenhuma verificação de idade ou identidade e prometem envios rápidos e elevada pureza (por exemplo, "testado a 99%+").

O resultado é um mercado paralelo, fora da supervisão clínica e das salvaguardas regulatórias. Embora a importação ou a posse de peptídeos sujeitos a receita, sem autorização, possa dar origem a coimas ou outras penalizações legais, a fiscalização torna-se difícil num mercado global e digital.

Ao mesmo tempo, a própria prática de injectar parece estar a perder o estigma, sobretudo no universo dos cuidados estéticos e do bem-estar. A maioria dos injectáveis cosméticos (incluindo injecções anti-rugas e preenchimentos dérmicos) também envolve substâncias sujeitas a receita médica. Ainda assim, existem muitas clínicas onde se administram injecções com uma supervisão muito reduzida por parte de médicos prescritores.

Esta "cultura do injectável", a par do aumento do uso de esteróides, pode estar a baixar as barreiras para práticas mais experimentais, incluindo o consumo de peptídeos.

O que diz, de facto, a evidência?

Para muitos peptídeos promovidos para anti-envelhecimento e saúde da pele, a evidência de alta qualidade em humanos continua a ser escassa.

As alegações de que peptídeos como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 regeneram e reparam tecidos e atenuam a inflamação baseiam-se em poucos estudos laboratoriais - em células ou em animais, e não em pessoas.

Por exemplo, existe alguma evidência limitada de que o GHK-Cu possa ter um papel na produção de colagénio e na cicatrização de feridas em ratos. Contudo, estes resultados não foram confirmados em humanos.

De forma semelhante, alguns trabalhos sugerem que o BPC-157 pode promover a formação de novas células sanguíneas, reduzir inflamação e favorecer a cicatrização de tecidos em ratos.

Mas a evidência em humanos é extremamente limitada. Apenas três estudos pequenos avaliaram o BPC-157; além de não estarem bem desenhados, não incluíam um grupo de controlo que permitisse comparar os efeitos reportados (como a melhoria da dor no joelho). Não existem ensaios clínicos de grande dimensão. Assim, a sua segurança e eficácia em humanos permanecem incertas.

Surge, repetidamente, o mesmo padrão:

  • a evidência está maioritariamente limitada a estudos em animais
  • quando há estudos em humanos, tendem a ser pequenos e de curta duração
  • não existem ensaios de alta qualidade que reflictam o uso no mundo real, incluindo combinações, doses mais elevadas ou administração a longo prazo.

Por isso, neste momento, não dispomos de evidência suficientemente sólida para sustentar as múltiplas alegações anti-envelhecimento associadas aos peptídeos.

E existem riscos

Em primeiro lugar, há o problema da qualidade desconhecida do produto. Peptídeos não regulados podem estar mal rotulados, contaminados ou com dosagens incorrectas - algo que já foi documentado em mercados próximos, como o de esteróides contrafeitos.

Em segundo lugar, existem riscos biológicos. Peptídeos que mexem com vias de crescimento, reparação ou hormonais podem também activar processos indesejados. Em teoria, isto pode incluir estimular o crescimento de tumores já existentes ou interferir com a função endócrina normal. Este risco de cancro é agravado pela elevada presença de metais pesados nos mercados ilícitos de substâncias de melhoria de desempenho/estética.

Em terceiro lugar, a própria injecção traz riscos - incluindo infecções, abcessos e lesão dos tecidos, sobretudo quando os produtos são auto-administrados sem técnica estéril.

No Steroid QNECT, já vemos pessoas a pedir orientação depois de usarem peptídeos comprados online - muitas vezes sem saberem exactamente o que tomaram, em que quantidade, ou o que esperar.

Nalguns casos, as doses utilizadas ultrapassam largamente tudo o que foi estudado em ensaios clínicos.

O que precisa de mudar?

São necessárias regras mais claras e consistentes para a oferta e a promoção de peptídeos. Ainda assim, isto dificilmente será suficiente por si só, tendo em conta o alcance global e digital das cadeias de fornecimento.

Uma resposta mais eficaz também deveria incluir informação de saúde pública clara e acessível sobre potenciais benefícios e riscos do uso de peptídeos.

Acima de tudo, as respostas precisam de reflectir a realidade: estas substâncias já estão a ser utilizadas.

Timothy Piatkowski, Investigador Sénior em Saúde Pública, The University of Queensland; Bahareh Ahmadinejad, Doutoranda em Saúde Pública, The University of Queensland; e Samuel Cornell, Investigador Associado Honorário em Saúde Pública, The University of Queensland; UNSW Sydney

Este artigo é republicado da plataforma The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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