Um médico do desporto diz: sim - desde que comece a agir já.
Muita gente apercebe-se, a partir de meados dos 30 anos, de que as escadas parecem mais íngremes, os joelhos protestam e as costas ficam tensas. Ao mesmo tempo, multiplicam-se os exemplos de seniores em grande forma que, aos 70, continuam a pedalar, a dançar e a fazer caminhadas. O que é que eles fazem de diferente? A medicina do desporto aponta para uma resposta clara: raramente é uma questão de “bons genes” e quase sempre uma questão de treino bem orientado - em qualquer fase da vida.
O verdadeiro adversário na idade: não são as rugas, é a perda de massa muscular
É certo que o corpo envelhece. Só que o desafio mais relevante não está na pele, mas no declínio da massa muscular. A partir de cerca de meados dos 30, a musculatura começa a reduzir-se lentamente, ano após ano. Quando não se faz nada para contrariar isso, o impacto aparece mais tarde: levantar-se do sofá custa mais, carregar sacos das compras pesa, o equilíbrio piora.
“Se quer ser tão capaz aos 70 como era aos 30, precisa sobretudo de uma coisa: treino de força consistente - ajustado à sua idade.”
Especialistas em medicina do desporto, como o professor Martin Halle, sublinham que até pessoas com problemas prévios - por exemplo, após um enfarte - podem beneficiar de treino de força e de treino intervalado moderado e bem planeado. O organismo mantém uma capacidade de adaptação surpreendente durante muito tempo, desde que seja estimulado com regularidade.
Cinco fases da vida: como deve ser o seu treino
O ponto essencial é simples: aos 18 anos, o corpo precisa de estímulos diferentes do que aos 58. Para manter a boa forma até idades avançadas, vale a pena ajustar as prioridades do treino ao longo das etapas da vida.
Infância e adolescência: brincar é o melhor treino
Até por volta dos 20 anos, o corpo trata de muita coisa “automaticamente”. Os músculos crescem, os ossos tornam-se mais densos e o sistema nervoso aprende movimentos a grande velocidade. Nesta fase, as chamadas células satélite - uma espécie de “células estaminais do músculo” - estão particularmente activas, ajudando a reparar e a construir fibras musculares.
Treino de hipertrofia pesado, muito direccionado e com cargas elevadas ainda não é necessário e, muitas vezes, nem é a opção mais sensata, porque as cartilagens de crescimento dos ossos podem não estar totalmente fechadas. O que faz mais sentido é:
- muita actividade no dia a dia (correr, brincar, trepar)
- desportos com muitas mudanças de direcção (futebol, andebol, hóquei)
- exercícios de coordenação e mobilidade
Quem se mexe bastante em criança e adolescente constrói uma base sólida. Estudos indicam que estímulos de treino precoces podem influenciar o corpo de forma positiva ao longo de toda a vida.
Adultos jovens (20–35): é aqui que se acumulam as reservas
Entre os 20 e os 35, o corpo está no seu pico. É nesta janela que a força, a resistência e o desempenho máximo evoluem com maior facilidade. Por isso, compensa construir músculo de forma estruturada - funciona como uma conta-poupança para as décadas seguintes.
Um conjunto equilibrado pode ser:
- 2–3 sessões de treino de força por semana (corpo inteiro, exercícios livres, máquinas ou peso corporal)
- 2 sessões de resistência (por exemplo, corrida, bicicleta, natação, treino intervalado)
- movimento no quotidiano: escadas em vez de elevador, bicicleta em vez de carro, trajectos curtos a pé
Quem trata o treino de força com a mesma naturalidade com que lava os dentes entra nos anos seguintes com uma “almofada” muscular considerável.
Meia-idade (35–55): travar a perda lenta e contínua
A partir de meados dos 30, sem treino, o corpo perde todos os anos uma quantidade mensurável de músculo. As fibras rápidas - essenciais para sprint, impulsão e picos súbitos de força - são particularmente afectadas. O resultado é típico: ficamos mais lentos, menos explosivos e com a sensação de maior “pesadez”.
“O corpo esquece a força com uma rapidez impressionante - mas também a recupera depressa quando volta a ser desafiado.”
Nesta fase, o treino deve ser orientado para abrandar esse declínio:
- Curto, mas intenso: 20–30 minutos de treino de força com séries exigentes podem chegar, desde que haja consistência.
- Prioridade aos exercícios base: agachamentos, lunges, flexões, pranchas, remada, elevações na barra (com ajuda, se necessário).
- Treino intervalado para o coração: por exemplo, 1 minuto a correr/pedalar mais rápido, 2 minutos suave, repetindo 8–10 vezes.
Mesmo depois de um enfarte, muitos cardiologistas preferem carga controlada em vez de repouso excessivo. Sempre com acompanhamento médico, claro - mas a mensagem é inequívoca: o corpo deve trabalhar, não ser “mimado”.
Adultos mais velhos (55–75): músculo como escudo da autonomia
Neste período decide-se muitas vezes como alguém vive aos 75: com independência ou a precisar de ajudas. Os músculos respondem mais devagar aos estímulos e “adormecem” mais depressa quando o treino falha. Precisamente por isso, a regularidade e a carga bem escolhida tornam-se ainda mais importantes.
Objectivos principais nesta etapa:
- manter a musculatura, sobretudo em pernas, glúteos e core
- treinar equilíbrio e capacidade de reacção
- praticar situações do dia a dia (levantar-se, subir escadas, transportar pesos)
Um modelo semanal prático:
- 2× treino de força (por exemplo, no ginásio, num clube ou em casa com halteres e bandas)
- 2–3× resistência a ritmo moderado (marcha rápida, bicicleta, natação)
- 1× treino de equilíbrio (por exemplo, apoio unipodal, tai chi, yoga leve)
Pequenas melhorias - como aguentar mais dez segundos em apoio numa só perna - podem reduzir quedas. Além disso, o treino de força melhora o metabolismo, ajuda na prevenção da diabetes e alivia as articulações, porque músculos fortes estabilizam melhor.
Seniores com mais de 75: mexer-se é qualidade de vida
Também depois dos 75 vale muito a pena treinar - muito mais do que muitos imaginam. A investigação mostra que mesmo pessoas muito idosas conseguem aumentar massa muscular e melhorar funções do dia a dia quando treinam de forma regular.
Actividades populares e úteis:
- dança (cardio, musculatura, coordenação e convívio no mesmo “pacote”)
- grupos de ginástica em desporto sénior ou reabilitação
- treino de força em máquinas guiadas no ginásio, muitas vezes com supervisão
- caminhadas diárias - mesmo com bengala ou andarilho, se for preciso
“Ninguém é ‘demasiado velho’ para treinar. Quem se mexe ganha muitas vezes anos de independência.”
O essencial é ajustar a intensidade, garantir um ambiente seguro e, idealmente, ter acompanhamento qualificado - sobretudo em caso de doenças prévias ou grande insegurança.
Como pode ser um plano semanal para estar “fit aos 70”
O plano ideal depende sempre de doenças pré-existentes, peso, rotina e motivação. O exemplo abaixo serve apenas como orientação geral para pessoas saudáveis na meia-idade ou em idades mais avançadas:
| Dia | Actividade |
|---|---|
| Segunda-feira | 30 minutos de treino de força de corpo inteiro (por exemplo, agachamentos, flexões na parede, remada com banda, prancha) |
| Terça-feira | 40 minutos de caminhada rápida ou passeio de bicicleta leve |
| Quarta-feira | Exercícios de equilíbrio e alongamentos leves (10–15 minutos) |
| Quinta-feira | 30 minutos de treino de força como na segunda-feira |
| Sexta-feira | Sessão intervalada: 5 minutos a aquecer, depois 6–8× 1 minuto a andar mais depressa / 2 minutos devagar, 5 minutos a desacelerar |
| Sábado | Actividade do quotidiano: jardinagem, compras a pé, passeio |
| Domingo | Descanso ou uma caminhada descontraída |
Quem regressa após uma pausa longa ou tem problemas de saúde deve rever o plano com a médica ou o médico e ajustá-lo.
Porque o treino de força faz muito mais do que “dar músculo”
Os exercícios de força não actuam apenas no bíceps e nas coxas. Ajudam a melhorar o metabolismo da glicose, diminuem o risco de quedas e reduzem a sobrecarga articular. Em particular, quem tem dores nos joelhos muitas vezes beneficia de coxas bem treinadas, porque a articulação fica mais estável e melhor guiada.
Há também ganhos psicológicos: quando alguém percebe “Já consigo fazer mais dez agachamentos”, sente auto-eficácia - um factor protector importante contra estados depressivos na idade.
Fitness trackers: pequenos aliados para manter a consistência
Muita gente só passa do “eu devia voltar” para o “eu treino mesmo com regularidade” quando consegue ver progresso. É aqui que os fitness trackers e as smartwatches podem ajudar.
Para além de contarem passos, medem frequência cardíaca, zonas de treino, fases de sono e lembram pausas activas. Modelos como Garmin Vivoactive, Huawei Watch Fit, Fitbit Sense ou Fitbit Charge respondem a perfis diferentes - de quem treina a sério a quem procura algo mais para o dia a dia.
- Vantagem na motivação: metas diárias de passos ou minutos activos ajudam a criar rotina.
- Vantagem no controlo: é mais fácil gerir as zonas de pulso durante o treino.
- Vantagem na visão global: tendências a longo prazo de sono, stress e actividade ficam mais claras.
Especialmente em idades mais avançadas, estes equipamentos também podem transmitir segurança, por exemplo com alertas de frequência cardíaca ou funções de emergência. Não substituem um diagnóstico médico, mas ajudam a encarar a saúde de forma mais consciente.
Dicas práticas para começar - em qualquer idade
Se já passa anos com pouca actividade, não precisa de correr para o ginásio de um dia para o outro. Para arrancar, bastam três regras simples:
- Começar pequeno: 10 minutos por dia é melhor do que 60 minutos nunca.
- Ser constante: mais vale três sessões curtas por semana do que um treino gigante isolado.
- Usar o quotidiano: ficar em apoio numa perna ao lavar os dentes, andar de um lado para o outro ao telefone, treinar com uma minibanda enquanto vê televisão.
Palavras como células satélite podem soar complicadas, mas a ideia é directa: os músculos mantêm-se adaptáveis ao longo de toda a vida quando recebem estímulos. Cada escada, cada agachamento e cada passo de dança envia precisamente esses sinais.
Quem começa hoje não só ganha para os 70. Os efeitos sentem-se depressa: sono melhor, mais estabilidade no dia a dia, menos dores nas costas e mais energia mental. E aumenta a probabilidade de que, aos 70, o corpo se aproxime do que muitos gostariam de sentir aos 30.
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