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Burnout: ACT, CFT e o Beyond Burnout Blueprint de Shaina Siber

Jovem sentado a trabalhar num portátil com livro aberto e chá fumegante numa mesa clara, em ambiente de escritório.

Uma nova estratégia terapêutica vai mais ao fundo.

Em muitas empresas, já é comum encontrar cestos de fruta, aplicações de mindfulness e, ao fim do dia, uma aula de ioga. Ainda assim, um número crescente de profissionais sente-se completamente exausto. Dados recentes de estudos internacionais sugerem que já não se trata de casos isolados, mas de uma tendência ampla, difícil de travar apenas com “mimos” no local de trabalho.

Quando dois em cada três profissionais estão a trabalhar no limite

De acordo com um estudo citado em publicações especializadas como a News Medical, cerca de 66% dos trabalhadores apresentam sinais claros de burnout. Em termos estatísticos, num grupo de três pessoas, duas estariam afectadas - um dado particularmente grave para o mundo laboral.

A Organização Mundial da Saúde enquadra o burnout como um fenómeno relacionado com o trabalho. O quadro é definido por um conjunto de três dimensões de sintomas:

  • exaustão profunda e persistente, que quase não melhora mesmo após dias de descanso
  • distanciamento crescente em relação ao trabalho, cinismo e indiferença
  • quebra perceptível de desempenho, dificuldades de concentração e aumento de erros

E, muitas vezes, não fica por aqui. O stress crónico está associado a depressão, perturbações de ansiedade, doenças cardiovasculares e a um risco acrescido de AVC. Ou seja, o burnout não afecta apenas o estado de espírito: impacta o organismo como um todo.

"O burnout já não é uma quebra passageira, mas um estado crónico de excepção para o cérebro, o corpo e as relações."

Porque é que os programas de bem-estar nas empresas raramente chegam para inverter o problema

Perante o problema, muitas organizações recorrem a um “kit” de respostas: ioga ao fim da tarde na sala de reuniões, algumas sessões de mindfulness com uma formadora externa, ou até uma semana de quatro dias em formato de projecto-piloto. Estas medidas podem aliviar a pressão no curto prazo, mas raramente resolvem a raiz da situação.

As fontes de sobrecarga mantêm-se: exigência excessiva, disponibilidade permanente, má liderança, papéis pouco definidos e reestruturações constantes. Quem já entrou numa espiral de exaustão tende a cair novamente após a próxima fase mais intensa - independentemente de quantas saudações ao sol consiga fazer.

É precisamente neste ponto que surgem abordagens psicológicas mais recentes, com maior ancoragem em mecanismos neurobiológicos e foco não apenas nos sintomas, mas também nos padrões de pensamento e de comportamento.

Novos conceitos terapêuticos: aceitação e compaixão em vez de auto-optimização

A psicóloga Shaina Siber apresenta, num livro técnico, uma proposta que combina duas abordagens: Acceptance and Commitment Therapy (ACT) e Compassion-Focused Therapy (CFT). Ambas se inserem na terapia cognitivo-comportamental contemporânea e foram amplamente estudadas do ponto de vista científico.

ACT: aceitar o stress em vez de lutar sem parar contra ele

Na ACT, o objectivo não é, sobretudo, “eliminar” pensamentos ou emoções desconfortáveis. O essencial está numa postura que especialistas descrevem como “aceitação radical”. A pessoa aprende a notar os pensamentos difíceis sem os reprimir e sem ficar totalmente capturada por eles.

Ao nível cerebral, isto está associado a alterações na actividade da chamada "Default Mode Network". Esta rede tende a estar mais activa quando há ruminação e ciclos repetitivos de pensamento negativo. Quando se treina a capacidade de reconhecer os pensamentos sem lhes dar seguimento, diminui essa activação contínua. O resultado é uma redução do alarme interno e o regresso de espaço mental.

CFT: a compaixão como antídoto para o agressor interior

A CFT junta à ACT um foco explícito na compaixão - não apenas dirigida aos outros, mas sobretudo a si próprio. Muitas pessoas em burnout pressionam-se de forma implacável: “Aguenta, não sejas fraco, tens de funcionar.” Este tom interno agressivo alimenta ainda mais o stress.

Na CFT, treina-se uma voz interior diferente: mais cordial, sem deixar de ser honesta. Do ponto de vista neurobiológico, isto influencia áreas ligadas ao medo e à ameaça, em especial a amígdala. Quando a sua actividade baixa, o sistema nervoso consegue regular-se melhor. Em paralelo, reforçam-se redes associadas a segurança, vinculação e pertença.

"A auto-compaixão não é um factor de conforto; é uma alavanca mensurável no cérebro que baixa o regulador do stress."

A dimensão do efeito é ilustrada por um estudo randomizado com profissionais de saúde, publicado na revista científica PLOS ONE: após apenas quatro sessões de ACT, quase metade dos participantes apresentou uma melhoria significativa do seu sofrimento psicológico. Para um período terapêutico relativamente curto, é um impacto considerável.

Um plano de seis passos para sair da armadilha da exaustão

Com base na sua experiência, Shaina Siber organiza um programa estruturado a que chama "Beyond Burnout Blueprint" - essencialmente, um plano de seis passos pensado para mudança sustentada e não para uma simples pausa momentânea.

1. Voltar a encontrar os próprios valores

O ponto de partida é uma pergunta simples: o que é que me orienta e o que é realmente importante para mim no trabalho? Sob stress contínuo, sentido e valores tendem a ficar totalmente esquecidos. Ao clarificá-los, cria-se uma espécie de bússola interna para guiar decisões futuras.

2. Tolerar o desconforto em vez de fugir

No segundo passo, trabalha-se a capacidade de não evitar automaticamente emoções e situações difíceis. Muitos escapam através de horas extra, perfeccionismo ou isolamento total. A terapia promove a aptidão para permitir a tensão de forma consciente e gradual. Assim, o sistema nervoso aprende que estados desagradáveis aparecem e desaparecem sem que tudo colapse.

3. Acalmar o crítico interior

Outro elemento central é mudar o tom do diálogo interno. Mensagens como “És demasiado lento” ou “Nunca é suficiente” passam a ser identificadas e traduzidas para uma linguagem mais amigável, sem perder a verdade. A investigação sobre práticas de auto-compaixão indica que, com este treino, há alterações mensuráveis em pulso, tensão arterial e hormonas do stress.

4. Passos pequenos no dia-a-dia, guiados por valores

Em vez de decisões radicais, como despedir-se de um dia para o outro, a abordagem aposta em mudanças comportamentais pequenas e alinhadas com valores: dizer um não claro a prazos irrealistas, conversar com franqueza com a chefia, fazer uma pausa sem telemóvel, ou adoptar outra relação com o erro. A durabilidade nasce da soma destas mini-decisões.

5. Procurar aliados sociais

O burnout isola. Muitos sentem vergonha e optam por não falar. Por isso, o plano dá um papel decisivo à criação de contactos fiáveis: colegas com quem se pode falar abertamente, grupos de pares e apoio terapêutico. A mensagem é clara: pedir ajuda é um sinal de força, não de fraqueza.

6. Questionar as estruturas dentro da empresa

No último passo, a metodologia sai do plano exclusivamente individual. Organização do trabalho, metas, cultura de liderança e regras de disponibilidade - tudo isto deve ser reavaliado. Sem mudanças aqui, os ajustes pessoais acabam por ser apenas um remendo.

"Quem trata o burnout apenas como um problema individual ignora o papel de estruturas tóxicas e de condições de trabalho esmagadoras."

O que as empresas precisam mesmo de mudar

Muitas organizações ficam-se por intervenções cosméticas e falham o essencial: o burnout surge quando, de forma prolongada, as exigências ultrapassam os recursos disponíveis. Na prática, isto traduz-se em demasiado trabalho, pouca clareza, pouca margem de controlo e pouco reconhecimento.

Tendem a ser mais eficazes medidas como:

  • carga de trabalho realista e prioridades claras, em vez de pressão constante
  • comunicação transparente durante mudanças
  • lideranças que respeitam limites e que dão o exemplo na gestão de horas extra
  • eliminação da disponibilidade permanente fora do horário de trabalho
  • acesso a apoio psicológico profissional sem estigma

Um ponto relevante é que, mesmo quando as condições externas melhoram mais tarde, o burnout costuma deixar marcas. O cérebro “aprende” o estado de alarme contínuo. Por isso, quem foi afectado beneficia de apoio estruturado para voltar a confiar na própria capacidade de resistência - e as empresas devem acompanhar de forma intencional os processos de regresso após doença prolongada.

Como os profissionais podem reconhecer os primeiros sinais de alerta

Muitas pessoas entram na exaustão de forma gradual. Entre os sinais precoces mais comuns estão dificuldades de sono, irritabilidade persistente, distanciamento crescente de colegas e uma sensação de vazio interior apesar de resultados visíveis. Quando até tarefas pequenas parecem esmagadoras, o alerta é evidente.

Pode ajudar manter um registo semanal: com que frequência penso em trabalho quando devia estar de folga? Em que momentos me sinto vivo e em quais me sinto em piloto automático? Este tipo de observação dá pistas sobre se uma correcção autónoma pode chegar ou se é necessário apoio terapêutico.

Abordagens práticas para o dia-a-dia

Quem sente que está no limite pode começar por hábitos simples que ajudam a mudar a direcção - sem a expectativa de uma “cura rápida”:

  • horários fixos sem ecrãs à noite
  • acordos claros com a chefia sobre disponibilidade
  • pequenas pausas diárias sem telemóvel na mão
  • uma conversa semanal com alguém de confiança focada apenas na própria sobrecarga
  • treino orientado de auto-compaixão, por exemplo com exercícios áudio guiados

O burnout raramente desaparece por si só. Sempre que a sensação é a de apenas “funcionar”, enquanto por dentro tudo parece vazio, é preciso mais do que um fim-de-semana prolongado - é necessário sair conscientemente do padrão antigo e criar estruturas que tornem isso possível.


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