Saltar para o conteúdo

2026 e a febre Kennedy: o regresso de Carolyn Bessette-Kennedy e o estilo dos anos 90

Mulher de cabelo loiro, vestido branco e casaco castanho caminha na rua com sacos de compras, táxi amarelo atrás.

2026 será lembrado como o ano em que os EUA atacaram o Irão, Ryan Murphy atacou a memória dos Kennedy e os consumidores assaltaram as lojas na tentativa de recriar o seu visual.

O regresso de Carolyn Bessette-Kennedy ao centro da cultura pop

A febre Kennedy - popular desde os tempos de juventude das minhas avós - voltou a ganhar força com a estreia de "História de Amor", cuja primeira temporada acompanhou Carolyn Bessette-Kennedy e John F. Kennedy Jr. No final dos anos 90, CBK (como passou a ser conhecida) tornou-se alvo de perseguição mediática e, ao mesmo tempo, musa para muitas mulheres. O seu impacto social não se compara ao de Diana Spencer, mas, no plano cultural, ocupa um lugar próprio na identidade da mulher nova-iorquina dos anos 90.

O revivalismo dos anos 90 e a corrida às lojas

Com o êxito da série - que trouxe de novo a sua imagem para as luzes da ribalta - as lojas de moda procuram agora dar resposta à procura por estética dos anos 90. Multiplicam-se milhares de vídeos de compras nas redes sociais, com calças Levi's, camisas brancas, blazers e muitas bandoletes em destaque.

Distinção social, consumismo e o "luxo discreto"

Por detrás desta obsessão está um sinal claro da cultura consumista em que vivemos, na qual a ideia de comprar uma identidade e usá-la de forma superficial é exequível e até plausível. Ainda assim, reduzir este fenómeno apenas ao consumismo seria, também, uma leitura simplista de algo substancialmente mais rico.

Os anos 90 ficaram associados a uma estabilidade macroeconómica global - em particular nos Estados Unidos, no Reino Unido e na União Europeia. Hoje, atravessamos um tempo de instabilidade, sobretudo devido aos conflitos globais que se instalam e cujas dimensões são sentidas pelo consumidor. Por isso, torna-se compreensível a romantização de um período em que a vida parecia melhor e mais fácil, algo que também se observou durante a crise financeira de 2008. Isto acontece porque, nestas fases, tendemos a rejeitar a ostentação e a procurar o luxo discreto, apresentando ao mundo uma imagem sofisticada e contida, reconhecível apenas por verdadeiros detentores de capital cultural.

No fundo, trata-se mais de distinção social do que de moda, como enunciava Pierre Bourdieu. Para o sociólogo, o gosto é produzido pelas elites e desce depois num género de efeito em cascata, até chegar às bases. Ao definirem o que conta como bom gosto, definem também quem tem acesso a ele, deixando aos restantes uma versão sem dinâmica, sem interpretação e sem apreciação.

Assim, o blazer que compramos na Zara oferece-nos apenas a ilusão de curar um gosto que já vem curado e mastigado, como se fôssemos pássaros a serem alimentados pela mãe.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário