Quando se fala em suplementação, é fácil pensar em “soluções rápidas”. Ainda assim, um estudo recente sugere que um nutriente muito conhecido pode ter um papel concreto na reparação do fígado em adultos com esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), uma forma grave de doença hepática gordurosa em que o excesso de gordura desencadeia inflamação e lesões.
Os investigadores observaram que uma dose diária de 300 mg de vitamina E melhorou tecido hepático, dando um novo enquadramento a um suplemento comum como possível forma de atenuar danos numa doença que, muitas vezes, progride sem sintomas evidentes.
Vitamin E and liver damage
Ao comparar amostras de biópsia feitas antes e depois do tratamento, o tecido hepático lesionado mostrou sinais mensuráveis de recuperação nas pessoas que receberam vitamina E.
Num trabalho realizado em vários centros clínicos, Junping Shi, da Hangzhou Normal University (HZNU), registou essas alterações tal como apareceram diretamente no tecido dos doentes.
Houve melhoria em cerca de 29,3% dos participantes tratados, face a 14,1% no grupo placebo no mesmo período.
Esta diferença sugere um efeito biológico real, embora ainda deixe em aberto até que ponto o benefício será consistente e generalizável em populações maiores.
Why dose matters
Estudos anteriores com vitamina E tendiam a testar doses mais altas, por isso este ensaio procurou perceber se uma dose diária mais baixa também poderia ajudar.
No estudo de 2010, 800 UI por dia melhoraram a doença hepática em 43% dos adultos tratados sem diabetes.
Neste ensaio mais recente, foi usada uma dose de 300 miligramas por dia e, mesmo assim, observou-se melhoria na acumulação de gordura, na inflamação e na fibrose - a cicatriz que torna o fígado mais rígido.
Como o tratamento da MASH costuma ser prolongado, uma meta-análise já tinha encontrado benefícios, mas com resultados de fibrose nem sempre consistentes.
What MASH does
A MASH começa quando a gordura se acumula no fígado e o órgão fica inflamado ao ponto de começar a perder células saudáveis.
Ao contrário do fígado gordo simples, esta forma pode levar à formação de tecido cicatricial, tornando o órgão mais duro e menos capaz de desempenhar as suas funções.
Os casos têm aumentado em paralelo com a obesidade e a diabetes tipo 2, e uma revisão recente indica que esta subida continua em curso a nível global.
Quando a cicatrização progride demasiado, os riscos de cirrose, cancro do fígado e necessidade de transplante aumentam de forma acentuada.
How vitamin E works on liver cells
A vitamina E atua como antioxidante, neutralizando moléculas instáveis antes que continuem a danificar as membranas celulares e a alimentar a inflamação.
Com essa pressão a diminuir, menos células do fígado incham e os marcadores de lesão no sangue podem começar a descer.
As análises ao sangue que costumam subir quando o fígado está irritado baixaram mais no grupo da vitamina E, e também desceu um marcador de inflamação.
A alimentação continua a ser relevante: frutos secos, sementes e óleos vegetais fornecem o mesmo nutriente em dietas comuns.
Signals beyond tissue
Os médicos não se basearam apenas em lâminas de tecido para avaliar o que mudou durante o tratamento. Exames não invasivos de rigidez também evoluíram numa direção mais favorável, sugerindo que o fígado ficou um pouco menos rígido ao longo do tempo.
Isto é importante porque um fígado rígido muitas vezes reflete cicatrização mais profunda, mesmo quando a pessoa se sente perfeitamente bem.
O resultado do exame foi modesto, mas alinhou-se com os achados no tecido, em vez de os contrariar.
A segurança tem sido sempre o principal ponto sensível da vitamina E na abordagem a problemas do fígado. Por isso, a dose mais baixa usada neste estudo foi mais do que um detalhe técnico.
Neste ensaio, contudo, os eventos graves que ocorreram não foram considerados causados pelo tratamento.
Esse cenário mais “limpo” é animador, mas um estudo com dimensão moderada ainda deixa espaço para que efeitos raros apareçam mais tarde.
Where doctors stand
As orientações atuais da American Association for the Study of Liver Diseases limitam a vitamina E a adultos selecionados sem diabetes nem cirrose.
A mudança de estilo de vida continua a ser a base do tratamento, porque a perda de peso pode reduzir a gordura no fígado e, por vezes, reverter lesões iniciais.
A vitamina E em dose baixa poderá encaixar melhor como complemento com supervisão médica em adultos sem diabetes que sejam semelhantes à população do ensaio.
Quem compra suplementos por iniciativa própria estará a “adivinhar”, já que a dose errada - ou o doente errado - pode transformar uma ideia promissora num mau plano.
Limits of this trial
As perturbações provocadas pela COVID levaram a que mais pessoas abandonassem o estudo do que os investigadores previam.
Os 14 centros ficaram todos na China, e todos os participantes tinham MASH confirmada por amostra de tecido hepático antes do início do tratamento.
Estes aspetos reforçam os dados de tecido, mas também limitam a quem é que os resultados se podem aplicar de forma justa.
Pessoas com diabetes, cirrose ou com dietas e genética muito diferentes podem não responder da mesma forma.
Why this matters
Mesmo com maior atenção, os cuidados na MASH continuam a ser caros, desiguais e muitas vezes só chegam quando a cicatrização já está instalada.
Uma vitamina familiar, amplamente disponível e já presente na alimentação do dia a dia seria mais simples de estudar e mais fácil de disponibilizar.
Essa vantagem prática faz com que este resultado com dose mais baixa mereça ser levado a sério, sobretudo em locais com menos consultas especializadas de hepatologia.
O custo e o acesso não provam eficácia, mas ajudam a explicar porque é que este resultado tem atraído tanta atenção.
Este novo ensaio não resolve em definitivo o lugar da vitamina E na MASH, mas reforça a ideia de que alguma lesão hepática pode melhorar com um tratamento mais simples.
Agora, estudos maiores e com doentes mais diversos precisam de mostrar quem beneficia mais, durante quanto tempo o benefício se mantém e como esta vitamina se integra com alimentação, perda de peso e tratamento por prescrição.
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