Em França, um concurso de beleza passou, de um momento para o outro, a dominar as manchetes: duas rainhas regionais perdem as coroas, a nova Miss France 2026 surge no centro da atenção e, nas redes, instala-se um verdadeiro shitstorm. Tudo gira em torno de um vídeo curtíssimo gravado no camarim, uma piada de mau gosto, egos feridos - e a dúvida sobre se isto merece mesmo o rótulo de maior escândalo televisivo da semana.
Como um vídeo de telemóvel fez duas misses perderem o título
O detonador cabe em poucos segundos. Depois da eleição de Miss France 2026, em Amiens, uma candidata grava nos bastidores com o telemóvel. O ambiente está tenso: muitas concorrentes acabaram de ser eliminadas na primeira ronda, há lágrimas e frustração no ar. Nesse instante, a representante da Aquitania comenta para a câmara a composição do Top 12 e questiona o resultado de forma aberta.
Ao seu lado está a Miss da Provença. Ela acrescenta - num tom audivelmente brincalhão, mas com linguagem claramente grosseira - um comentário com que rotula as finalistas. O vídeo começa por circular em privado, depois aparece numa story e, mais tarde, chega a um influenciador conhecido. A partir daí, espalha-se rapidamente pelas redes sociais.
De poucos segundos de frustração e humor negro nasce uma tempestade que custa o título a duas mulheres.
Os comités regionais reagem num prazo de 48 horas. Aquitania e Provença retiram às duas candidatas as coroas regionais e todos os benefícios associados, passando as faixas às respetivas segundas classificadas. O responsável do comité nacional fala publicamente de um “vídeo vergonhoso” e frisa que isto não se enquadra nos valores do concurso.
Desculpas, justificações e um toque de pânico
As duas visadas não optam pelo silêncio. No Instagram, a jovem da Aquitania tenta limitar os estragos: diz que, numa gravação pensada apenas para amigos, validou afirmações de outra candidata - afirmações que, garante, não estão alinhadas com aquilo em que acredita. Faz questão de repetir palavras como respeito, solidariedade e dignidade, lembrando que foram princípios transmitidos pelo comité ao longo de meses.
Assume, sem rodeios, que naquele momento não esteve “à altura desses valores”. Fala em arrependimento, reconhece que magoou colegas e pede perdão a quem se sentiu atingido - com a expectativa de que o tempo possa baixar a temperatura da polémica.
A Miss da Provença escolhe uma abordagem um pouco diferente. Numa story e numa entrevista a um jornal regional, descreve o cenário que, segundo ela, se viveu após o espetáculo: mais de vinte jovens, muitas devastadas, algumas a chorar, num clima pesado. Diz que, quando as pessoas estão em baixo, tende a usar frases mais soltas e até doces para as animar.
O argumento central dela: a frase foi uma brincadeira dura, mas “de confiança” - não um insulto propositado.
Afirma que não quis atacar ninguém de forma dirigida e que, no seu círculo, a expressão teria sido usada mais no sentido de “sortudas”. Acrescenta que não se apercebeu de que estava a ser filmada, nem imaginou que a gravação pudesse vir a público. Quando as imagens se tornaram públicas, diz ter pedido desculpa de imediato às concorrentes visadas.
Foi mesmo um escândalo - ou apenas uma piada infeliz?
A questão de fundo divide fãs, imprensa e caixas de comentários: estamos perante ofensas reais e deliberadas ou perante uma piada de mau gosto que, no contexto, é parcialmente explicável num espaço fechado?
Na conversa com o jornal regional, a jovem da Provença relata que, pouco antes, uma responsável terá dito - em resumo - que agora as candidatas já podiam voltar a praguejar e libertar a pressão. Nesse ambiente, ela atira a frase, e várias participantes eliminadas terão rido e, por instantes, esquecido a tensão.
Vista por esse prisma, a frase parece menos um ataque à dignidade das finalistas e mais uma tentativa de lidar com um pico emocional através de humor negro. Ainda assim, a escolha de palavras continua a ser forte e desajustada, sobretudo para alguém que representa publicamente um título, mesmo que temporário. O contexto, porém, ajuda a perceber até onde chegou a espiral de indignação.
- Situação privada, mas tornada pública por um smartphone
- Calão que, em regra, fica entre amigos
- Exigência moral elevada sobre representantes de um concurso
- Pressão simultânea das redes sociais e dos shitstorms
Daí nasce um conflito difícil: de um lado, um regulamento rígido que trata as Misses como modelos de comportamento; do outro, pessoas reais na casa dos 20 anos que, sob stress extremo, nem sempre filtram cada palavra.
Recuo por ambição? Miss Provença nega
Há um pormenor que quase se perde no meio do ruído: a candidata da Provença diz que, antes da final, já tinha comunicado internamente que nem queria chegar ao Top 12. Explica que não se via confortável no papel de Miss nacional e preferia que esse lugar ficasse para concorrentes com um sonho maior.
Define-se como espontânea e, por vezes, pouco ponderada - e considera que esse perfil encaixa mal num cargo altamente regulamentado, em que cada gesto e cada frase são escrutinados. Soma-se um fator pessoal: o pai terá Alzheimer, e um ano de mandato longe da família seria, para ela, emocionalmente difícil.
Isto não apaga o conteúdo do que se ouve no vídeo, mas enfraquece a leitura de que tudo teria sido apenas um acesso de inveja. Em vez disso, desenha-se o retrato de uma jovem apanhada num “circo” de brilho que colide com as suas prioridades de vida.
Conflito entre as duas misses envolvidas no escândalo
Outro elemento alimenta a polémica: as duas protagonistas acabaram também em desacordo entre si. A Miss da Provença acusa a candidata da Aquitania de ter publicado o vídeo na sua story sem combinar nada. Diz que não foi pedida autorização e que não houve transparência quanto ao risco de a gravação se tornar pública.
O regulamento é claro: vídeos conjuntos com faixa podem ser problemáticos, e publicações impulsivas podem ter consequências.
Depois do “leak”, a Provençal afirma ter tentado contactar a colega para esclarecer a situação, mas, segundo a sua versão, não houve conversa direta. Em paralelo, a candidata da Aquitania pede desculpa publicamente e afasta-se claramente das palavras do clip - o que, do lado da outra, é sentido como uma atribuição de culpa feita a uma só parte.
A verdadeira vencedora: Miss France 2026 e a sua missão
Quase a passar despercebido no meio da controvérsia, está o triunfo da nova Miss France 2026. A coroa vai para Hinaupoko Devèze, que concorreu como Miss da Martinica, tem raízes familiares na Polinésia e passou grande parte da juventude no sul de França. Estuda Psicologia, trabalha ao mesmo tempo como assistente administrativa e organiza viagens sustentáveis para um arquipélago no Pacífico.
O tema que mais a mobiliza é a saúde mental. Depois de um burnout, escolheu deliberadamente esse percurso académico e quer, a longo prazo, ajudar a que o bem-estar psicológico seja levado tão a sério como as doenças físicas. No barulho em torno do vídeo de bastidores, fica claro como este assunto ganha peso numa era de shitstorms e “tribunais” digitais.
Assim ficou o ranking de Miss France 2026
| Classificação | Titular |
|---|---|
| Miss France 2026 | Hinaupoko Devèze (Miss Martinica) |
| 1.ª dama de honor | Juliette Collet (Miss Nova Caledónia) |
| 2.ª dama de honor | Victoire Dupuis (Miss Normandia) |
| 3.ª dama de honor | Naomi Torrent (Miss Guadalupe) |
| 4.ª dama de honor | Déborah Adelin Chabal (Miss Roussillon) |
Mesmo a nova vencedora não escapa por completo: alguns órgãos de comunicação recuperam uma participação antiga num videoclipe e rumores ligados à viagem de preparação. É um sinal de como o concurso passou a existir sob a lente permanente das redes sociais.
Redes sociais, shitstorms e o preço elevado de um título
O que torna este caso tão chamativo não é apenas a frase em si, mas o mecanismo por trás. As candidatas são instruídas sobre regras de telemóvel e redes sociais; ainda assim, basta uma gravação fora de contexto para o país inteiro discutir linguagem e comportamento. A distância entre um riso privado e uma indignação pública nunca foi tão curta.
Para jovens que muitas vezes mal passam dos 20 anos, isto traduz-se numa realidade dura: qualquer comentário “à vontade” pode virar manchete nacional. A candidata da Provença fala em dezenas de milhares de mensagens na caixa de entrada, em cyberbullying e no sentimento de se tornar alvo de insultos, ao mesmo tempo que é apresentada como agressora.
Forma-se então um paradoxo: um concurso que invoca respeito, decoro e exemplaridade acontece num palco que reage sem piedade quando esses ideais falham - e que, frequentemente, também ultrapassa os limites do respeito ao fazê-lo.
Porque é que a polémica continua a ser instrutiva
Este episódio serve menos como julgamento moral sobre “misses más” e mais como demonstração de quão sensível se tornou a relação entre linguagem, privacidade e telemóveis na vida pública. Há aprendizagens práticas que vão além de concursos de beleza:
- Ironia ou humor negro, em vídeo, pode parecer facilmente um ataque sério.
- Stories “privadas” raramente permanecem privadas, sobretudo no contexto de programas de televisão.
- Quem ocupa um cargo oficial - mesmo por pouco tempo - é avaliado por padrões mais exigentes.
- Ao mesmo tempo, é essencial ter estratégias para lidar com o ódio digital.
Hinaupoko Devèze, ao colocar a saúde mental no centro, mostra como o glamour pode cruzar-se com temas socialmente relevantes. E quando uma Miss France fala abertamente de burnout, sobrecarga emocional e resiliência, isso encaixa - inesperadamente bem - num ano em que um instante de raiva põe carreiras inteiras em causa.
Quem acompanha o shitstorm do sofá esquece depressa que do outro lado não estão ícones perfeitos, mas jovens sob pressão extrema. É aí que a discussão sobre supostas “ofensas” poderia ser menos estridente e muito mais construtiva.
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